Mostrando postagens com marcador Marvel no Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marvel no Brasil. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de dezembro de 2024

A história da Marvel no Brasil em um “livraço” no Catarse. Não perca a oportunidade!

Quer saber muitas coisas que pouca gente sabe sobre as décadas de histórias da Marvel numa só obra feita pelo cara que mais sabe do assunto? Entrou no Catarse a nova obra de Alexandre Morgado: o “Almanaque das Curiosidades Marvel Brasil”. O livro será lançado pela Hyperion Comics de Levi Trindade.  Confira aqui um preview das páginas dessa edição imperdível:


No Almanaque das Curiosidades Marvel é apresentado a trajetória da Casa das Ideias por todas as décadas, destacando, além de diversas curiosidades, os gibis que fizeram e ainda fazem as nossas cabeças, juntamente com fatos importantes dos principais momentos da história do nosso país. 

“É um livro que incorpora a essência da Marvel no Brasil com a história do nosso país”, comenta Morgado. “Esse projeto teve início em 2021, após o lançamento do livro ‘A Trajetória da Casa das Ideias no Brasil’. Diferente do Trajetória, o Almanaque é altamente colorido em um acabamento extremamente luxuoso. Uma obra nunca produzida nesses moldes com quadrinhos no Brasil. Um projeto que irá agradar a todos, pelo seu conteúdo histórico e ilustrativo”, comenta o autor.


O Almanaque das Curiosidades Marvel Brasil terá capa dura, sobrecapa, 288 páginas coloridas em couché, fitilho e reserva de verniz brilho na capa e sobrecapa. Ele é fruto da pesquisa realizada ao longo de vários anos por Alexandre Morgado,auxiliado com maestria na diagramação e no projeto gráfico pelo designer VAM!, cujo talento pôde ser visto recentemente no livro Olhares Sobre os X-Men, de Guilherme Smee, que também contou com textos de Morgado.

Prepare-se para descobrir, rever ou apenas curtir TODA a história da publicação dos gibis da Marvel no Brasil, desde o lançamento do primeiro personagem, em 1940, passando por todas as editoras que detiveram os direitos ao longo das décadas, chegando até a Panini Brasil. O livro conta, ainda, com um prefácio escrito por Jotapê Martins, lendário editor e tradutor que foi um dos responsáveis pela consolidação das publicações da Marvel em nosso país. Um verdadeiro mergulho na história da produção editorial e gráfica brasileira. Um registro ímpar que merece estar na sua estante ou na sua pilha de leitura infinita!

O projeto ainda inclui um pôster exclusivo para a campanha com arte do brilhante artistas “Matias Streb”.


Para garantir o seu, basta entrar nesse link:

https://www.catarse.me/almanaque_das_curiosidades_marvel_brasil_3220?ref=ctrse_explore_pgsearch

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Refutando o livro “Invencível: A Ascensão e a Queda de Stan Lee”, de Abraham Riesman.

O nome “Stan Lee”, causa sensações distintas em algumas pessoas, principalmente em seus opositores. Desde que a Marvel foi criada, após um quase fechamento da editora no final dos anos 1950, tanto Stan Lee, quanto os outros “pais” do Universo Marvel, Jack Kirby e Steve Ditko, viraram análise de estudo por muitos pesquisadores. A criação da Marvel, com um exército de novos personagens, e com alguns da Era de Ouro, reacendeu o gênero no longínquo ano de 1961. Em cima da criação, o nome de Stan Lee é o mais aclamado e conhecido de fato. Seus dois principais artistas, Jack Kirby e Steve Ditko, sempre ficaram à sombra do “gênio” por traz do sucesso da editora. 

Stan Lee foi o último a falecer dos três. Jack Kirby, morto desde 1994, foi o primeiro deles. O Rei dos quadrinhos, que desenhou e criou personagens praticamente sua vida inteira, não pode aproveitar dos mesmos “louros” que Stan Lee aproveitou em vida. Após assinar alguns de seus melhores contratos com a Marvel, Stan Lee passou a ser o símbolo mor da editora, e como consequência, ganhou muito mais dinheiro que os dois juntos, passando a ser o único criador (erroneamente) da Marvel. Steve Ditko, que faleceu alguns meses antes de Stan, era recluso, misterioso e se negava a participar dessa euforia. De fato, Stan Lee foi quem se deu melhor. E seu grande erro foi ter perdido seus melhores artistas por orgulho. Ditko foi embora em 1966, depois de não se acertarem pelos rumos do Homem-Aranha, e Jack ficou magoado e com razão pelo jeito que a Marvel o tratou. Jack Kirby, infelizmente, foi humilhado na editora que ajudou a construir. Os motivos foram vários, e Stan Lee foi responsável por alguns deles, se bobear pela maioria. Mesmo com todos os seus erros, Stan não pode ser rebaixado como o cara que não fez nada. É impossível estar na posição que Stan Lee ocupava e dizer que ele não tem nada a ver com o que foi feito.



 Após sua morte, um movimento de “desmistificar” o mito Stan Lee, cresceu. Um deles é o livro do autor “Abraham Riesman” chamado “Invencível: A Ascensão e a Queda de Stan Lee”. Publicado no Brasil em 2021 pela “Globo Livros”, Riesman, cria um texto sólido, bem escrito, porém, muito tendencioso sobre Lee. Como na maioria das biografias, o autor começa desde os primórdio com seus antepassados; passando pela sua infância; chegando aos escritórios da editora que viria a se tornar a Marvel; a ascensão da editora; os desentendimentos com seus artistas; sua vida em Hollywood e por fim, seus últimos e terríveis dias de vida nas mãos de sua filha usurpadora e de outros “sanguessugas”. Da parte que me interessa de fato: a criação dos personagens e o trabalho colaborativo com seus artistas. Desde que Jack Kirby deixou a Marvel em 1978, o assunto “quem fez o que”, criou forma. Jack, sempre que podia, dizia que tudo era ideia dele, Stan Lee, às vezes citava seus artistas, outras vezes, não – e o “quem criou” virou debate de fofoca de programa de tevê vespertino. Jack em alguns casos, tinha razão em algumas observações. Em outras, carregava na hipérbole. Stan também exagerava, quando podia. Para exemplificar essa questão, o problema entre eles era um só: créditos. 

Voltando a polêmica biografia, quando Risman entra no cenário da criação, o autor não é parcial, e tende a ficar mais do lado dos desenhistas e em alguns momentos, passa a desmoralizar o personagem principal de seu livro. Até consigo compreender o autor, pois muito foi falado de Stan Lee como o Deus da Marvel em diversos outros livros, e essa foi a chance de Riesman fazer um trabalho novo, se distanciando dos demais biógrafos. Não entro no contexto da vida pessoal e dos negócios mal sucedidos que Stan teve ao longo da vida. Afinal, todos nós, inclusive o próprio autor, temos os nossos altos e baixos. E da vida.

Agora, sobre a criação dos personagens que compõem o Universo Marvel, Riesman, comete altos desatinos. Começando pelo Quarteto Fantástico, Riesman inicia com a célebre frase, “quem criou o The Fantastic Four 1 e, com isso, deu início à revolução Marvel? pg 117.

O autor aponta a questão dizendo que “fora as palavras frequentemente repetidas por Stan, não há prova alguma conhecida de que ele tenha criado a premissa”. E continua, “Não há pranchas de apresentação de projeto, documentos jurídicos contemporâneos, correspondências nem registro de diário. Nada”. Em seguida, Riesman fala sobre a “sinopse” da edição 1, datilografado por Stan Lee, dizendo que é um “documento curioso com uma história questionável”. pg 118.


PRIMEIRA REFUTAÇÃO: Por que Riesman não leva a sinopse de The Fantastic Four 1 em consideração? Esse documento já havia sido visto por Roy Thomas em 1966, antes de existir o “quem criou”. Quando The Fantastic Four chegou aos seus trinta anos de lançamento com a edição 358, em novembro de 1991, a sinopse da primeira história foi publicada nesta edição. O interessante nessa sinopse é que ela não é exatamente do jeito que foi desenhada. Acredito que essa sinopse é original feita sim na época, porém, feita após uma conversa entre ambos. Alguns detalhes que estão na sinopse original não foram usados no resultado final. Entre eles o drama dos personagens com a conquista de seus poderes. De acordo com esse documento, Susan, ficaria invisível permanentemente. Para ser vista, ela colocaria uma máscara. Só assim, para que as demais pessoas pudessem vê-la. Com o Tocha Humana, Johnny não ficaria em chamas por mais do que cinco minutos. Depois desse tempo, seu corpo iria se apagar. Com o Senhor Fantástico, o líder do grupo teria alguns efeitos colaterais ao se esticar. De acordo com os textos, Reed sentia muitas dores ao esticar o seu corpo, e esse seria um dos dramas a serem explorados. Com o Coisa, sua origem foi do jeito que foi apresentado na revista. Outro detalhe, era uma viagem ao planeta Marte. O fato é até questionado pelo próprio Stan sobre se deviam apenas explorar a corrida espacial ou se deveriam conquistar o planeta vermelho. Outro ponto que soa interessante é uma frase em que Stan Lee, ao falar da invisibilidade permanente da Garota Invisível, alerta Jack Kirby, dizendo: “Melhor falar comigo sobre isso Jack, talvez possamos mudar um pouco esse detalhe”. Minha observação aqui é a seguinte: Por que Stan Lee cita o nome de Jack, em específico nessa sinopse? Ficou claro pra mim que Stan havia conversado com Jack, antes de digitar esse documento – e ao alertá-lo sobre esse ponto é uma clara evidência de um dos detalhes conversados anteriormente. E o mais contundente: se Stan Lee fosse se dar ao trabalho de digitar algo trinta anos depois de publicado, por que faria um texto diferente do que foi apresentado na edição de estreia? 

Outro ponto em The Fantastic Four que Riesman ignora: a carta de Stan Lee a “Jerry Bails”. Na década de 1950, Jerry Bails, foi um dos precursores dos fanzines nos Estados Unidos, dando início com suas publicações sobre o tema em algumas publicações. Apaixonado por quadrinhos, Bails, publicou diversos fanzines, com matérias e novidades sobre os personagens da era de ouro e de prata. Pelo seu grande trabalho, Bails, estreitou relações com “Julius Schwartz”, editor da DC Comics. Após Bails mandar cartas e mais cartas para a DC, perguntando sobre os personagens, Julius, que passou a conhecer seu fanzine, mandava alguns dos roteiros das histórias para Bails publicar. Em uma época sem internet, e os quadrinhos não sendo a melhor coisa do mundo pelos olhos da sociedade, Bails ajudou a segmentar os quadrinhos naqueles anos. Com o sucesso de seu fanzine (visto com bons olhos pelas editoras), Bails criou uma relação com Stan Lee, pois, além de adulto, Bails era também um professor universitário credenciado. O que acabou agregando mais atenção e respeito aos editores Julie Schwartz e Stan Lee em relação ao fã médio e comum. Uma das cartas enviadas a Jerry Bails, assim que Fantastic Four 1 foi lançada, fornece alguns detalhes interessantes, com informações e suas intenções de direcionar os quadrinhos para um público mais velho


CARTA DE STAN LEE PARA JERRY BAILS


Prezado Jerry,

Me diverti lendo a ALTER-EGO e a COMIC COLLECTOR, e gostei bastante da pequena crítica ao QUARTETO FANTÁSTICO, escrita por Roy Thomas.

Apenas para corrigir algumas imprecisões: Eu não sou um “antigo” editor da TIMELY. Eu tenho sido editor e diretor de arte dessa incrível instituição nos últimos 21 anos, e espero continuar sendo para sempre. Além disso, duvido que o Sr. Thomas tenha sido o único a adquirir uma cópia (embora ele tenha dito isso em tom de humor, obviamente) porque, se julgarmos pelos primeiros recordes de vendas, acredito que tenhamos em mãos um título vitorioso.

Para o futuro do Q.F., teremos:

        

           UNIFORMES

       

           UM TRATAMENTO DIFERENTE (em termos de arte) para o Tocha

       

            NOVOS PERSONAGENS NOS PRÓXIMOS MESES


(Não fique muito surpreso ao encontrar o Príncipe Submarino novamente, ou o Capitão América! Quem sabe??)


        E MAIS UMAS SURPRESINHAS... Então, continue com a gente, amigo!

Estou interessado também na sua opinião sobre outra revista, que estará à venda em breve... AMAZING ADULT FANTASY. Achamos que vai ser um estouro.

A respeito dos vários comentários sobre o Q.F., nós evitamos de propósito que a garota invisível (opa, desculpa!), Garota Invisível atravessasse paredes, para justamente não dar MUITOS superpoderes aos nossos personagens, já que achamos que esse tipo de coisa tem muito apelo junto a leitores MAIS JOVENS; e estamos tentando (talvez em vão?) atingir um público um pouco mais velho e sofisticado.

Por enquanto é só... Continuem com o bom trabalho.

Atenciosamente,


Carta de Stan Lee de 29 de agosto ao fã Jerry Bails (carimbada em 1º de setembro de 1961)



A carta enviada por Stan Lee, com menos de um mês do lançamento de Fantastic Four 1 esclarece que sim, Stan CONVERSAVA SOBRE ENREDO com Jack Kirby. Assim como Jack, que CONVERSAVA SOBRE ENREDO com Stan Lee. Reparem que na carta, Stan cita os uniformes (que iriam aparecer somente na edição 3), o retorno de Namor (na edição 4) e o retorno do Capitão América (somente em 1964). Ou seja, as primeiras edições e alguns pontos que ainda viriam a acontecer, já estavam sendo elaboradas. Nesse início Stan e Jack trabalharam em comunhão e com a criação do lançamento de Fantastic Four, foi ativada a chave da inventividade na cabeça de ambos, fazendo com que a criatividade aflorasse.

Ainda sobre o Quarteto, Risman escreve a seguinte frase: “Há um boato de que o documento inteiro foi criado após a chegada da revista às bancas” pg 118...poxa, há um boato? sério? por parte de quem? O autor refuta o documento, mas enfatiza um boato imaginário. Riesman também leva em consideração o depoimento de um dos assistentes de Jack Kirby, que nunca trabalhou na Marvel. Steve Sherman conta que acredita que a sinopse é falsa, pois foi o que Jack disse a ele (???). Riesman leva em consideração o lado negativo do depoimento de Jack para Sherman ao mesmo tempo que refuta um documento que existe. O autor conclui que “É quase certo que não exista um item definitivo que resolva a questão”pg 119. Certamente, Risman não conhece, ou ignora o historiador “Tom Brevoort” 

Tom Brevoort é editor e pesquisador de quadrinhos nos Estados Unidos. Tom, trabalha na Marvel desde 1989, tendo iniciado sua vida como estagiário – chegando até o cargo de vice-presidente sênior de publicação, trabalhando com diversos títulos na editora. Tom Brevoort, mantém o site,“The Tom Brevoort Experience” (tombrevoort.com), dedicado à pesquisa e curiosidades dos quadrinhos. Em uma de suas pesquisas, Tom fez uma análise das três primeiras edições de The Fantastic Four. E graças a ajuda de diversos outros pesquisadores, Tom conseguiu as páginas originais de “The Fantastic Four 3”, de março de 1962. O artigo intitulado “Lee & Kirby: Fantastic Four 3”, apresenta além das páginas originais, diversas anotações e rascunhos de Stan Lee, que através dessas páginas, conduzia a história desenhada por Jack Kirby. Muitas das páginas mostradas por Tom, apresentam alterações e revisões de Stan Lee, com o que Jack Kirby estava trabalhando. O artigo é excelente. Através dele é possível entender como o processo de criação entre ambos funcionava no começo da era Marvel. Depois de apresentar muitas das falas de Stan sobre a criação (que verdade seja dita, muitas das vezes as versões mudam conforme os anos), Risman diz que “se serve de consolo, Kirby também não ofereceu uma história simplificada a respeito de ter criado os personagens”. Ou seja, o autor roda, roda e não sai do lugar. The Fantastic Four foi criado por Stan Lee e Jack Kirby. Simples assim. Fonte: https://tombrevoort.com/2019/01/27/lee-kirby-fantastic-four-1-part-one/

Em seguida, Riesman fala sobre o Incrível Hulk. O autor, comenta sobre um personagem chamado Hulk, publicado meses antes do Incrível Hulk que conhecemos. Esse personagem anterior, que hoje é chamado de “Xemnu”, foi uma história desenhada por Jack, com roteiro de Larry Lieber, que escrevia em cima de um plot de Stan Lee. pg 128

Pela sua linha de pensamento, Riesman tenta desmoralizar o fato de Stan Lee usar um nome que havia sido publicado há pouco.


SEGUNDA REFUTAÇÃO: O autor, mais uma vez, não sabe que antes mesmo desses dois “Hulks”, um outro, foi publicado como um robô em “Strange Tales 75” de 1960, quase dois anos antes. E nessa primeiríssima aparição do nome Hulk em um gibi da editora, o desenhista da história foi Don Heck com Stan Lee e Larry Lieber, fazendo os textos. Stan Lee ainda usaria o nome Hulk, em uma história de ficção-científica com desenhos de Steve Ditko. Ou seja, o nome já era bem rodado, antes de Jack Kirby desenhar o Hulk que conhecemos.


 A primeira vez em que o nome “Hulk” foi usado: Strange Tales 75 de 1960.

Pulamos para o Thor, o Deus do Trovão. O autor aponta que “”Stan não havia demonstrado nenhum interesse em mitos nórdico, nem mesmo nos próprios relatos de sua juventude. pg 131


TERCEIRA REFUTAÇÃO: esse argumento de Risman é fraco, pois o fato de não ter feito nada antes, garante, segundo o seu raciocínio que Stan Lee não poderia ter feito ou pensado em um Thor na era Marvel. Mas pela sua pesquisa preguiçosa, Stan Lee, ao lado de Werner Roth, apresentou um Thor e um Loki, 11 anos antes. Durante a fase Atlas, foi publicada uma história intitulada “Trapped in the Land of Terror" na edição de “Venus 12” de 1951. A história escrita por Stan Lee e desenhada por Werner Roth, mostra uma versão do Deus do Trovão e de seu irmão, Loki na história da Deusa do amor, Venus. Por um tempo, esse Thor produzido por Stan e Roth era considerado pela própria Marvel como sua primeira aparição em suas revistas, constando até no “Official Handbook of the Marvel Universe” e nas primeiras versões do site Marvel.com. E ainda, a lenda de Thor, já havia sido publicado por outras editoras, como a Archie Comic em 1939 e a Fox Feature Syndicate em 1940. Jack Kirby também fez um Thor na DC, em duas histórias depois da Archie e a Fox. Até Steve Ditko, pela Charlton, fez sua versão. Ou seja, Riesman ignora o trabalho colaborativo, com um “Stan não havia demonstrado interesse em sua juventude”, sem perceber que existiam muitas versões já publicadas, inclusive por ele em 1951.

 


O primeiro Thor da Marvel, por Stan Lee e Werner Roth em Venus 12 de 1951

Chega a vez do Homem-Aranha. A origem da criação é bem complexa, mas tentarei resumir. Joe Simon e Jack Kirby, tinham um nome…isso mesmo “UM NOME”, escrito em um papel, chamado “Spiderman” sem hífen. Esse nome era em cima de um roteiro de um personagem chamado “Silver Spider”, desenvolvido por C.C Beck e Jack Oleck, em 1953 JAMAIS publicado. Eis que em 1958, Simon e Kirby aproveitam essa sinopse do SIlver Spider e publicam o “The Fly” pela Archie, que dura pouco pelas mãos dos dois. Saltamos para 1962, Stan Lee e Jack Kirby conversam sobre “Spiderman”. Fica impossível dizer quem deu a ideia do nome. De qualquer forma, Jack desenha cinco páginas, Stan Lee entrega a Steve Ditko para fazer a arte final. Ditko diz a Stan que o personagem se parece muito com o The Fly, publicado há pouco tempo. Stan deixa as páginas de lado, escreve uma nova sinopse de uma página e meia e entrega para Steve Ditko, que desenvolve o uniforme e a mitologia de Peter Parker. Realmente, Stan Lee já contou diversas histórias sobre essa inspiração. Ora era uma mosca na parede, ora era o “The Spider”, um personagens dos pulps, que segundo Stan, serviu de inspiração. O Homem-Aranha, dessa vez com hífen, é criação de Stan Lee e Steve Ditko. Jack Kirby, pode ter apresentado o nome, que estava guardado desde os anos 1950, mas o Homem-Aranha que conhecemos, não tinha nada a ver com Silver Spider e muito menos com The Fly. E qual é a polêmica, aqui? Nos anos 1980, Jack travou uma batalha de anos contra a Marvel pela devolução das artes originais. E em cada entrevista, Jack dizia que o Homem-Aranha era criação dele. No livro, Riesman diz: “No entanto, ele (Jack) jurou de pé junto que o processo criativo começou com ele” pg 132.  


QUARTA REFUTAÇÃO: Acho incrível, o lado super tendencioso de Riesman, pois o autor acredita em Jack, apenas pelos dois pés, um próximo ao outro. Pela unilateralidade, Risman, não se esforça mais uma vez na pesquisa. Por exemplo, em 1971, em uma entrevista para a rádio WNUR-FM em 1971, Jack Kirby disse isso:

Entrevistador: Outro artista sobre o qual eu queria te perguntar é Steve Ditko. Você já teve a chance de trabalhar com ele?

Jack Kirby: “Eu nunca trabalhei com Steve Ditko; ele é um sujeito meio tímido e eu o via raramente. Ele é muito simpático e muito inteligente. Eu sou um verdadeiro admirador do trabalho dele. Ele é um homem muito criativo. Na verdade, Steve criou o Homem-Aranha, e a coisa pegou por causa do que ele fez”.  Fonte:https://forum.cbcscomics.com/topic/15161/an-interview-with-jack-kirby-from-1971/

Logo depois, Riesman ao falar pelo lado de Steve Ditko, contesta o fato do desenhista receber as sinopses, e de nunca ter esclarecido quem foi que a escreveu. pg 134.

Aqui eu vejo uma imensa má vontade do autor. Steve, realmente não era de dar entrevista, mas publicava as respostas por meio de desenhos e ensaios. Um deles é esse aqui:

“Criação do Homem-Aranha de Stan Lee: Uma sinopse de 1 ou 2 páginas para o artista que deve desenhar de 21 a 24 páginas de painéis de história/arte. 

(O diálogo deve então ser trabalhando e adicionado a partir do script do painel do artista)”


Bom, aqui Steve explica (e desenha) de forma clara que Stan Lee fez 1 ou 2 páginas, indo na contramão do que o autor alega. E também tem essa fala em outra ocasião do próprio Steve Ditko:

“Stan ligou para Jack sobre The Fly. Não sei o que foi dito naquela ligação. Dias depois, Stan me disse que faríamos o Homem-Aranha. Eu estaria desenhando os detalhes do painel da história da sinopse de Stan”  Fonte:https://comicbookhistorians.com/the-ditko-version-exploring-steve-ditkos-recollections-of-m

REFUTAÇÃO FINAL: Abraham Riesman explora de forma contundente os assuntos controversos, bem diferente das outras biografias publicadas sobre Stan. O autor passa pelos primórdios de sua família e infância, até assumir o poder na Marvel, indo até os problemas com suas empresas e o seu final melancólico pelas mãos de sua filha e seus cúmplices. Riesman desnuda o mito em seu livro. E todos os detalhes fora da Marvel são cheios de controvérsias, em muitos dos casos, o autor apresenta Stan Lee como um cara que teve uma vida falsa e que não fez e criou nada em seus mais de 90 anos de vida.

Sobre o assunto que importa a mim: a criação do Universo Marvel, Riesman, não apresenta nada de novo, apenas cria polêmica onde não tem, com as criações dos personagens com uma pesquisa preguiçosa nesse ponto. Riesman tenta rebaixar o nome de Stan na maior parte do tempo, enquanto coloca os nomes de Jack Kirby e Steve Ditko mais em evidências pela ótica da criação. “Na ausência de dados conclusivos, a história foi escrita pelo vencedor”, conclui o autor. pg 125

Riesman deixa de lado, em muitos dos casos, uma análise mais apurada e parcial com os artistas que lá estavam. Pouquíssimas palavras de Roy Thomas e Jim Shooter, por exemplo, são trazidas aos contextos. E as que são apresentadas, são focadas no lado negativo. Pesquisadores como Tom Brevoort, John Morrow e Jerry Bails não foram levados em consideração. Don Heck, John Romita, Gil Kane e Gene Colan, artistas que gostavam de trabalhar com Stan, não foram lembrados. Por outro lado, Wally Wood, um dos que tiveram problemas, está no livro com viés negativo contra Stan Lee. Riesman acabou sendo muito crédulo com relação ao que Kirby disse com o que fez e como o fez. Tirando as partes do livro com ideias tendenciosas com a questão do “quem criou”, a pesquisa é excelente e o livro é muito bem escrito. A parte final (com trechos bem pesados e tristes), apresenta em detalhes, todo o drama que Stan Lee sofreu nas mãos de sua filha e da quadrilha que o cercou em seus últimos dias de vida.

O sucesso possui vários pais, já o fracasso é um filho bastardo. O homem precede o mito e o sucesso não é livre de conflito. E apesar de Abraham Riesman, Stan Lee continua sendo um dos criadores do Universo Marvel. 

“Excelsior”

 Alexandre Morgado.


Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2024, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics.


domingo, 1 de setembro de 2024

Grandes Histórias Marvel no Brasil: Os 50 anos do Punho de Ferro

Iron Fist, o Punho de Ferro está completando 50 anos de criação. Seu surgimento aconteceu em meio a onda dos filmes e séries de TV de Kung-Fu, que estavam se popularizando. Um ano antes do Punho de Ferro, a Marvel havia lançado “Shang-Chi, o Mestre do Kung-Fu”, e a partir desse lançamento, outros personagens do gênero chegavam. Roy Thomas e Gil Kane, combinaram a essência das artes marciais com os super-heróis, criando o Punho de Ferro. Após assistir a um dos filmes daquela época, Roy Thomas conta que em uma cena, mostrava uma cerimônia em que o personagem principal enfia os punhos em carvões em brasa, para deixá-los mais firmes para as lutas. “Eu gostei do nome Punho de Ferro”, conta Roy Thomas. “Naquela época, éramos muito mais sensíveis quanto a personagens com nomes parecidos; tínhamos o Homem de Ferro, e eu não sei se deveríamos ter um Punho de Ferro, ou se Stan Lee aprovaria, mas eu simplesmente gostei da ideia”. Roy Thomas continua: “Mencionei para Stan. Ele disse: “Eu realmente gosto como nome para um personagem de Kung-Fu”. Depois de dar os primeiros passos, Roy Thomas convocou Gil Kane, e ambos deram vida ao Punho de Ferro.

Iron Fist apresenta a história do jovem “Daniel Rand”, filho do industrial Wendell Rand, que a todo custo sonhava em encontrar a lendária cidade de “Kun-Lun”, um reino que de dez em dez anos surge nas montanhas do Himalaia, no Tibete. Cidade comandada por Yu Ti, soberano de Kun-Lun. Daniel, com nove anos, parte em busca da cidade, junto com seu pai, Wendell, sua mãe, Heather, e com um sócio de seu pai, chamado Harold Meachum. Durante a viagem, Wendell sofreu um acidente, juntamente com seu filho e sua esposa. Os três ficam pendurados em uma parte da montanha, à beira do precipício. Porém, Harold Meachum, que já planejava se livrar de seu sócio, acaba por não ajudá-lo e então pisa nas mãos de Wendell, até ele despencar pelas montanhas geladas do Himalaia. Meachum teve a oportunidade que queria, pois tinha como intuito assumir toda a indústria, no lugar de Wendell. Harold Meachum ofereceu ajuda ao jovem Daniel e à sua mãe, mas ela recusou ser ajudada pelo assassino de seu marido. Meachum parte e deixa mãe e filho para trás. Porém, os dois conseguem se salvar, e após saírem da montanha, sua mãe Heather avista uma pequena ponte, mas nesse exato momento, ela percebe que uma matilha de lobos estava em seu encalço. Para salvar seu filho, ela pede para Daniel correr até a ponte, e se atira para os lobos, salvando seu filho da morte certa. A ponte era simplesmente a entrada para o reino de Kun-Lun.



 Assim, Daniel Rand chega à lendária cidade onde é levado até Yu Ti, também chamado de A Suprema Personalidade de Jade e governante do reino. A partir dali, Daniel Rand seria treinado por Li Kung, um grande mestre das artes marciais. Após 10 anos treinando no reino de Kun-Lun, Daniel tem a oportunidade de ganhar o poder do Punho de Ferro, ao combater a serpente gigante chamada Shu Lao. Após vencer o grande réptil, Daniel abraça a serpente em seu corpo, para receber a marca do dragão e depois mergulha seus punhos no corpo da serpente, adquirindo, assim, o poder do Punho de Ferro. Com a conquista dos novos poderes, Daniel parte de Kun-Lun, voltando à América, em busca do assassino de seu pai. Suas primeiras histórias foram publicadas em “Marvel Premiere” das edições 15 a 25. Durante essas edições, além dos criadores, o Punho de Ferro passou pelas mãos de Len Wein, Doug Moench, Larry Hama e Tony Isabella. Logo depois, Chris Claremont, passou a ser o escritor de suas histórias com um jovem John Byrne fazendo a arte. O sucesso com o personagem foi o suficiente para ter uma publicação própria. “Iron Fist 1”, chegava em novembro de 1975, seguindo as histórias em Marvel Premiere. A nova revista durou 15 edições. Depois disso, o personagem foi publicado em “Marvel Team-Up” 63 e 64 e na revista “Power Man & Iron Fist” 48 a 50, todas essas histórias assinadas por Chris Claremont e John Byrne. 


No Brasil, o personagem chegou pela Bloch em 1975. Entretanto, como o Brasil não segue à risca a ordem das publicações originais, o personagem apareceu pela primeira vez na revista “Mestre do Kung-Fu 9”, em um conto de duas páginas apresentando técnicas de lutas, originalmente publicada em ‘Giant-Size Master of Kung Fu 1”. Suas primeiras histórias chegaram em sua própria revista, chamada “Punhos de Aço” em maio de 1977. A Bloch, pelo pouco conhecimento com o Universo Marvel, acabou iniciando com as histórias do personagem a partir de Iron Fist 1, ou seja, as dez primeiras publicadas em Marvel Premiere, permaneceram inéditas até a década seguinte, quando a Editora Abril assumiu o personagem.

A Bloch ficou mais conhecida à frente da Marvel pelas mudanças nas cores extravagantes dos personagens. Mas no caso da revista Punhos de Aço, a mudança na cor do uniforme, e a razão para a tradução do nome para Punhos de Aço, ao invés de Punho de Ferro, foram por puro receio ao período em que vivíamos naquele momento. A Bloch, como todo o país, estava vivendo em pleno regime da ditadura militar, no período do governo do presidente Ernesto Geisel e a empresa ficou com medo de publicar um personagem verde-amarelo com o nome de Punho de Ferro. Um personagem com esse nome, com as cores da bandeira, podia não pegar bem naquele momento. Alguém poderia acreditar que o personagem poderia ser um “brasileiro contra o sistema” e com certa razão, alteraram as cores do uniforme e o chamaram de Punhos de Aço. A Bloch achou melhor alterar as cores e não traduzir ao pé da letra o nome do personagem, principalmente pelo fato do presidente anterior a Ernesto Geisel, Emílio Garrastazu Médici, ter a fama de governar o país com “mãos de ferro”. Assim, a Bloch evitaria qualquer tipo de problema que pudesse surgir. A Bloch publicou somente cinco edições de Punhos de Aço (Iron Fist 1 a 12)  entre maio de 1977 a janeiro de 1978.

 Já na Abril, o personagem seria chamado corretamente de Punho de Ferro, sendo um dos personagens publicados na revista Heróis da TV. Algumas das histórias de Marvel Premiere saíram pela Abril de forma não sequencial.  Depois dessas histórias iniciais, o Punho de Ferro tornou-se um daqueles personagens que apareciam esporadicamente entre as publicações. 

Depois dos eventos da saga”Guerra Civil”, com a lei de registro, Daniel Radd tenta se encontrar em sua vida de empresário e acaba se deparando com alguns segredos da cidade mística de Kun Lun, que voltaram a atormentá-lo mais uma vez. A Panini compilou toda essa fase em quatro edições especiais em “O Imortal Punho de Ferro”, em uma grande fase pelas mãos dos competentes Ed Brubaker, Matt Fraction e Travel Foreman.


Em janeiro deste ano a Panini trouxe as primeiras histórias do personagem no compilado “Marvel Epic Collection 7”. Essa publicação é a melhor edição para acompanhar as histórias que deram origem ao Imortal Punho de Ferro. Mesmo não fazendo parte do primeiro escalão, o Punho de Ferro tem um lugar garantido nos corações dos leitores. Fica o nosso registro com os 50 anos de sua criação.



Alexandre Morgado.

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2024, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics.

domingo, 3 de março de 2024

Grandes Histórias Marvel no Brasil: As estreias fora de ordem de cada personagem.

Para entender a complexa cronologia dos heróis da Marvel é necessário anos e anos de estrada. Agora, se você é brasileiro, essa complexidade aumenta um pouco mais. Com mais de 80 anos de publicações, sagas, reviravoltas, histórias desfeitas e universos paralelos, toda a jornada desses personagens viraram tese de estudo. 

Além de toda a cronologia amarrada, alguns detalhes acabaram por confundir os leitores no Brasil. Hoje em dia, os leitores das publicações Marvel conhecem e compreendem todas essas amarras entre suas histórias e sagas. Mas para aqueles que acompanharam desde o final dos anos 1960, algumas (ou várias) dúvidas surgiram. A primeira delas era o porquê de várias editoras distintas estarem publicando os personagens da mesma editora. 

Como já foi explicado em diversos outros artigos, uma agência negociava com as editoras americanas e distribuiam para as editoras brasileiras. A partir desse ponto, uma confusão nascia. Como consequência, praticamente todos os personagens não começaram do começo com as editoras no Brasil.

A partir daqui, você irá descobrir a confusão com as estreias de cada personagem e o porquê as editoras não começaram pelo começo com a primeira história de origem de cada um deles.


Namor, o Príncipe Submarino.

Edição de Estreia: Marvel Comics 1

No Brasil: Marvel Mystery 2, publicado em “Gibi 142” pelo O Globo em 1940.

A primeira revista publicada no Brasil, Gibi 142 com Namor, foi publicada em abril de 1940. Administrado pelo empresário Roberto Marinho, O Globo foi quem abriu a porteira no Brasil. A editora acabou invertendo a história da edição 1 com a edição 2 de Marvel Mystery Comics. A primeira história do personagem saiu cinco meses depois, em setembro, em Gibi 210. Nesse caso, os leitores não ficaram tão perdidos, pois logo a origem chegava para elucidar a turma.


Capitão América.

Edição de Estreia: Captain America Comics 1

No Brasil: Captain America Comics 16, publicado em “O Gury 73” pelo Diário da Noite em 1943.

A revista "O Guri" trouxe a primeira aventura do Capitão América no Brasil. A sua estreia foi na edição 73, em junho de 1943. História extraída do título original Captain America Comics 16. O jornal Diário da Noite não publicou a fase da dupla Simon/Kirby. Optou por começar pela fase posterior, com as histórias desenhadas por Al Avison, Syd Shores e Vince Alascia. Dois anos depois de sua estreia, muito provavelmente as histórias iniciais nem chegaram por aqui. Assim, o ponto de partida foi com o original 16. O mais engraçado é que a fase Kirby e Simon acabou sendo publicada “somente”, 50 anos depois pela Abril, no especial “Capitão América, as Primeiras Histórias” em 1992. Teve leitor que não viveu pra ler essa revista. Já na era Marvel pela Ebal, a editora não publicou as histórias dos Vingadores, apresentando o retorno triunfal de Steve Rogers. A história em que é encontrado congelado não foi publicada pela editora de Adolfo Aizen. Muitos leitores brasileiros, ou todos eles, não sabiam desse lapso temporal entre a Atlas e a Marvel. Então o Capitão América apenas seguia no Brasil como se nada tivesse acontecido.A Ebal não se atentou com essa história dos Vingadores. Ninguém na Marvel disse para a Ebal publicar a fatídica história. E como a editora não se interessou pela revista dos Vingadores, a história do retorno do Capitão América seria publicada somente na década seguinte pela Bloch.



Quarteto Fantástico.

Edição de Estreia: Fantastic Four 1

No Brasil: Fantastic Four 6, publicado em “Super-X 12” pela Ebal em 1968.



O Quarteto Fantástico, sem dúvida, foi o que mais sofreu no Brasil. A Ebal muito desatenta com o que acontecia, não entendia que as histórias tinham uma sequência, principalmente com a primeira família da Marvel. Por isso, as histórias foram publicadas fora de ordem e em várias revistas. Além de Super-X, as histórias do Quarteto Fantástico saíram na revista do Demolidor e também no Homem-Aranha. A desordem foi tanta que até hoje, a fase Stan Lee e Jack Kirby está incompleta por aqui. A primeira história de origem foi publicada em janeiro de 1969 em Super-X 17 e apenas a primeira parte. Que dureza.



O Incrível Hulk.

Edição de Estreia: The Incredible Hulk 1

No Brasil: Tales to Astonish 70, publicado em Super-X 0 pela Ebal em 1967.



Hulk cinza? Claro que não! No Brasil nem sombra das primeiras histórias. A Ebal pulou cerca de 17 edições com a estreia do Incrível Hulk. O problema foi o mesmo do Quarteto Fantástico: falta de foco de compreender os personagens e perceber que existia um ponto de partida. The Incredible Hulk 1, foi publicada pela primeira vez em Capitão América 100 da Abril em 1987.



Homem-Aranha.

Edição de Estreia: Amazing Fantasy 15

No Brasil: The Amazing Spider-Man 28, publicado em Álbum Gigante:O 



A Ebal teve a façanha de começar com uma das últimas histórias desenhadas por Steve Ditko com a estreia do cabeça de teia. A primeira história de origem, por ter sido publicada em Amazing Fantasy e não em Amazing Spider-Man, acabou atrapalhando a logística da editora de Adolfo Aizen. Essa primeira história, da aranha radioativa picando o tímido Peter Parker só foi publicada em O Homem-Aranha 44 pela RGE em 1982, 14 anos depois de sua estreia. Pobre, Peter!


O Poderoso Thor.

Edição de Estreia: Journey Into Mystery 83

No Brasil: Journey Into Mystery 112, publicado em Álbum Gigante: O Poderoso Thor 0, pela Ebal em 1967.



Apesar da Ebal pular 29 histórias em relação a sua estreia com sua origem, a primeira aparição acabou saindo da edição seguinte, apresentando o médico Don Blake em plena Noruega onde encontra um estranho cajado. Se aqui a Ebal percebeu que havia um começo, por que faltou com os demais personagens?


Homem de Ferro.

Edição de Estreia: Tales of Suspense 39.

No Brasil:Tales of Suspense 67, publicado em Capitão Z 0, pela Ebal em 1967.



O Homem de Ferro também teve um começo confuso. A Ebal pulou cerca de 28 edições do personagem desde sua criação com sua história de origem. Nenhuma história da fase da armadura amarela, por exemplo, foi publicada. Tales of Suspense 39 com sua primeira aparição demorou 20 anos, sendo publicado pela Editora Abril em Heróis da TV 100 em 1987. Somente em 2021, que as demais histórias chegavam na íntegra dentro da Coleção Clássica Marvel pela Panini. Que confusão.



Os Vingadores.

Edição de Estreia: The Avengers 1

No Brasil: The Avengers 1, publicado em Os Vingadores 1 pela Bloch em 1975



Mesmo totalmente desconectada com a cronologia, a Bloch publicou as histórias dos Vingadores. E mais uma vez, o Capitão América seria a principal vítima. Enquanto suas histórias solos mostravam as aventuras nos anos 1970, essas histórias com seu retorno eram dos anos 1960. De qualquer forma, as primeiras histórias dos heróis mais poderosos do mundo chegavam ao Brasil. Antes tarde do que nunca.


X-Men

Edição de Estreia: X-Men 1

No Brasil: X-Men 7, publicado em Edições GEP X-Men 1 pela GEP em 1969.

 

Quando a Ebal começou a publicar o universo Marvel, nem todos os personagens do primeiro escalão foram aproveitados. Para a Ebal, naquele momento, só interessava trabalhar com os personagens que apareciam nos desenhos animados (Hulk, Namor, Capitão América, Homem de Ferro e Thor). Como a Ebal não tinha um acordo de exclusividade com as publicações Marvel, já que algumas das histórias eram compradas direto das agências que negociavam as publicações com as editoras brasileiras, alguns personagens foram oferecidos a outras editoras pela agência. É o caso dos X-Men,publicados pela Editora GEP, do experiente editor Miguel Penteado. Assim como a Ebal, a GEP, não começou do início com as histórias dos mutantes no Brasil. Será que ninguém percebia que existia uma edição 1? Pior que na capa da edição da GEP, está escrito “A Volta do Bolão!”, como ele voltou se não havia sido publicado? 


Doutor Estranho

Edição de Estreia:Strange Tales 110.

No Brasil: Fantastic Four 27,publicado em Quarteto Fantástico 16 pela Ebal em 1971.



A primeira aparição do Doutor Estranho no Brasil foi na edição 16 do Quarteto Fantástico da Ebal em abril de 1971 como convidado. Da sua série própria, temos um dos equívocos de publicação: As primeiras histórias de Stan Lee e Steve Ditko não foram publicadas quando a Marvel chegou ao Brasil. Como a Ebal a princípio só queria os personagens dos desenhos animados, o nosso querido Doutor não foi publicado pela editora carioca, e sim por uma editora concorrente, a Minami & Cunha como “Doutor Mistério”, com histórias dos anos 1970. As primeiras histórias de Stan Lee e Steve Ditko saíram no Brasil apenas em 2013 pela Salvat na “Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel - Clássicos n° 3”, com um atraso (que se levarmos em conta o início da Ebal), com quase 50 anos!



Surfista Prateado

Edição de Estreia: Fantastic Four 48

No Brasil: Tales to Astonish 92, publicado em Super-X 16 pela Ebal em 1968.



Essa aqui é sentar pra não cair no chão: no Brasil, o Surfista Prateado apareceu pela primeira vez como convidado em uma história do Hulk, em que foi chamado de “O Homem de Prata”. A Ebal não quis todos os personagens. Os que não interessavam foram parar em outras editoras. O engraçado era que a Ebal acabou adquirindo as histórias do Quarteto Fantástico. E como o Surfista Prateado foi criado em uma história do Quarteto, seria mais natural que a Ebal tivesse adquirido também as aventuras solos do Surfista. Isso acabou não acontecendo. Assim, o Surfista Prateado foi parar na Editora GEP, que ganhou uma revista em 1969. Os editores, tanto Adolfo Aizen da Ebal quanto Miguel Penteado da GEP, não entendiam o porquê dos personagens estarem um nas histórias do outro. A edição da GEP marca a fase do personagem pelas mãos de Stan Lee e John Buscema. O leitor mais atento vai perceber a mudança na ordem de sua aparição no Brasil. Suas histórias solos, publicadas pela GEP (em 1969), correspondem exatamente aos eventos após a chegada de Galactus à Terra (publicadas em 1974). Ser leitor da Marvel no Brasil nessa época não era fácil.


Mas será que ninguém foi publicado no Brasil com sua primeira edição?

Sim, dos personagens principais o único com essa façanha foi o Demolidor com sua primeira história publicada em sua revista pela Ebal em Demolidor 1 de 1969. Porém, na capa, o personagem foi pintado inteiramente de vermelho. Seu primeiro uniforme amarelo e vermelho não teve a sorte de ser apresentado no começo.

Ser leitor no Brasil não era fácil. Hoje com os compilados, nossas vidas ficam mais fáceis de acompanhar desde o início a era Marvel como foi concebida de verdade.

Alexandre Morgado.

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2023, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics

*Algumas imagens foram pesquisadas e retiradas do site brasileiro Guia dos Quadrinhos!


domingo, 28 de janeiro de 2024

Grandes Histórias da Marvel no Brasil: 50 anos e 10 curiosidades de Wolverine no Brasil.

Sim, o mutante mais invocado e amado está completando 50 anos de sua criação em 2024. Criado por Len Wein, Herb Trimpe e esboçado por John Romita, Wolverine acabou se tornando um dos personagens mais populares dos quadrinhos. Para celebrar essa importante data, selecionamos algumas curiosidades e bizarrices com o velho Logan que ocorreu somente no Brasil.


1 A ordem dos fatores não altera o produto.

Wolverine teve sua estreia oficial na edição The Incredible Hulk 180 em 1974. Quando o personagem chegou ao Brasil, sua primeira aparição não foi com essa história na revista do Hulk, e sim, já como integrante dos X-Men em The Uncanny X-Men 94, publicado no Almanaque Marvel 4 em 1979 pela RGE. Portanto, essa é a primeira aparição de Wolverine no Brasil. Sua primeira história oficial de estreia como o Incrível Hulk, foi publicada um ano depois na edição de O Incrível Hulk 22, também pela RGE em 1980.



 

2 Quem é Midget?

Um ponto curioso envolvendo a tradução e adaptação com Wolverine ocorreu na edição de "Almanaque Marvel 06” de 1980. Nesta edição, especificamente na página sete, em uma cena entre os X-Men na Sala do Perigo, Colossus diz: Midget! Não! Você me pegou de surpresa... E eu atingi com toda força! Wolverine, direcionando a palavra para o mutante Noturno, diz:“Ninguém ri de Midget”. Por algum motivo desconhecido de forças ocultas, Wolverine foi chamado de Midget em apenas uma página do Almanaque Marvel no 6 da RGE. No decorrer da edição, o personagem volta a ser chamado de Wolverine. Nem o editor da época soube explicar o motivo estranho dessa mudança. E o mais incrível é que isso aconteceu apenas em uma página da história publicada. Nas demais, o personagem é chamado pelo seu nome real, Wolverine. A edição original americana não faz nenhuma menção ao nome Midget, que em português significa “anão”. O assunto foi questionado com o editor da RGE, Felipe Ferreira, afirmando que não sabe e não se recorda do porquê da mudança, em apenas uma página, no nome do personagem. Esse é mais um dos mistérios editoriais brasileiros. 



3 Era pra ser Carcaju na Abril.

O nome Wolverine é derivado do mamífero Glutão, chamado também de Carcaju. O mamífero é conhecido pela sua coragem e por ser bem agressivo, principalmente com animais maiores do que ele. E é desse pequeno animal que vem o nome Wolverine. No Brasil, quando o personagem fez a sua estreia pela RGE, foi chamado acertadamente de Wolverine. Quando a Editora Abril assumiu as histórias dos X-Men em SAM, o tradutor e consultor, Jotapê, decidiu traduzir o nome do personagem para o português. Assim, Wolverine seria chamado pela Abril pelo nome “Carcaju”. Porém, por um bom senso, o nome foi vetado por Hélcio de Carvalho. Ainda bem.


4 A primeira minissérie em formatinho.

Com o sucesso das histórias dos X-Men, desde a fase Cockrum e se tornando um fenômeno nas mãos de John Byrne, o personagem, que tinha a sua origem desconhecida e envolvida em uma névoa de mistérios, atrairia muitos leitores. Quem era ele? Como seu esqueleto foi revestido por adamantium? Por que o governo canadense estava atrás dele? E como fala japonês tão fluentemente? As respostas demoraram um pouco para serem respondidas. Wolverine foi o primeiro personagem dos X-Men a ganhar uma história própria. Em forma de minissérie, a Abril publicaria, em 1987, quatro edições dessa primeira fase solo. E posteriormente, uma edição em sua versão encadernada. Nessa história, é mostrado um pouco da sua ligação com o Japão, em especial a Mariko Yashida, um amor do passado com quem acabaria se casando, em honra ao seu pai, Lorde Shingen. Escrita por Chris Claremont e desenhada por Frank Miller, a célebre frase “Eu sou Wolverine". Sou o melhor no que faço. Mas o que eu faço não é nada bonito” definiria o personagem na editora e o estabeleceria como um dos maiores do Universo Marvel.




5 Viva John Byrne.

Na edição Mestres Modernos, Volume Dois - John Byrne, publicada no Brasil pela Marsupial Editora, em 2014, Byrne disse que Chris Claremont iria tirar Wolverine dos X-Men, pelo simples fato do roteirista não saber o que fazer com o personagem. John Byrne, que nasceu na Inglaterra, mas se radicou no Canadá, abraçaria o personagem, dizendo “Vocês não vão cortar o único canadense. Então investi tudo em Wolverine”. Então, podemos afirmar que John Byrne é o grande responsável pela ascensão do personagem no Brasil e no mundo.


6  A estreia de Lobinho.

A primeira vez que os X-Men apareceram em uma série animada foi em “Homem-Aranha e seus incríveis amigos” de 1982. Na versão nacional, Wolverine foi chamado de “Lobinho”. E aí, qual nome alternativo vocês preferem? Lobinho, Carcaju ou Midget?


  

7 A primeira revista mensal.

O baixinho mais invocado da Marvel, ganhou sua revista mensal, em 1992 pela Editora Abril, apresentando suas histórias longe dos demais X-Men. As primeiras histórias foram criadas por Chris Claremont, John Buscema e Klaus Janson. Na sequência das revistas, alguns pequenos trechos de seu passado apareciam,entre uma edição e outra. Além da nova revista, foi publicada uma enxurrada de edições especiais no Brasil. A revista durou 101 edições entre 1992 a 2000.



8 Um mutante no Brasil.

A Pandora Books publicou em 2001 a edição especial “Wolverine Rio de Sangue”, com uma aventura do mutante canadense no Brasil. A capa foi feita pelo brasileiro Roger Cruz.De férias no Rio de Janeiro, Wolverine não esperava ter de enfrentar uma legião de seres demoníacos, transformando a cidade do Rio de Janeiro em Rio de Sangue.


 Em 2007, Wolverine ganhou uma Graphic Novel, produzida na Europa pelos artistas franceses Jean-David Morvan e Philippe Buchet, apresentando uma nova aventura do mutante canadense no Brasil, mais precisamente em Fortaleza, no estado do Ceará. Em férias no Nordeste, Wolverine acaba se envolvendo com criminosos, em uma história de conspiração com exploração de crianças e moradores de rua. A Graphic Novel, chamada “Wolverine – Saudade”, foi produzida na Europa e nos EUA com o mesmo nome, usando a palavra SAUDADE - uma expressão bem brasileira, que está entre as mais difíceis de serem traduzidas para outro idioma.


 


9 Prêmio com “Origem”.

De todas as histórias publicadas, sem dúvida a mais aguardada pelos fãs foi a minissérie Origem, que explicava, enfim, a saga de Wolverine. Joe Quesada sabia da responsabilidade em corresponder aos fãs, pois a origem do personagem era um dos maiores tabus da Marvel. A história, escrita por Paul Jenkins, com os desenhos de Andy Kubert, voltava para o século XIX, apresentando a infância de Logan. A origem guardada a sete chaves pela Marvel seria retratada com maestria nessa minissérie. A história foi publicada em três edições pela Panini, em um gibi em capa dura e também, em uma reedição especial, por ter ganhado o troféu Prêmio HQMix, como melhor série de 2002.

 


10 O eterno Isaac Bardavid.

O ator e dublador Isaac Bardavid, foi um dos dubladores mais marcantes com um dos personagens da Marvel no Brasil. Isaac dublou Wolverine por 24 anos.Sua voz, ajudou, ainda mais a popularizar o personagem nos desenhos animados e nos filmes. Falecido aos 90 anos em 2022, Isaac, teve a oportunidade de conhecer o ator Hugh Jackman, intérprete de Wolverine nos cinemas no programa The Noite no SBT. Certamente, Isaac Bardavid sempre será lembrado pela sua marcante voz.



PS: Nota de agradecimento ao site Guia dos Quadrinhos por ajudar na pesquisa e dispor de imagens de capas para ilustrar esse artigo.

Alexandre Morgado

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2023, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics


domingo, 10 de dezembro de 2023

Grandes HIstórias da Marvel no Brasil: Fase Atlas

A Marvel Comics é dividida em três períodos: a inicial com a fase Timely (1939-1951), a fase Atlas (1951-1957 - porém, podemos considerar até 1961) e a Marvel como conhecemos (1961 até o presente). Todas essas fases foram publicadas no Brasil. Se por um lado, sabemos quando a fase Atlas começou nos Estados Unidos, por aqui, as primeiras histórias dessa fase são inconclusivas. Como as histórias chegavam em lotes e eram distribuídas por muitas editoras e também com o pequeno delay entre os Estados Unidos e o Brasil, não podemos precisar qual foi a primeira dessa fase publicada por aqui como Atlas. O que podemos cravar são as editoras que trouxeram as primeiras dessa leva.

Após o término da 2° Guerra Mundial, os supers da Timely entraram em declínio. Mesmo com o alívio mundial do fim da guerra, os supers da Timely, já não tinham mais a quem enfrentar. E de todos os personagens, o Capitão América foi o que mais ficou deslocado. Captain America Comics, 75 de fevereiro de 1950, foi a última edição do personagem como Timely. Outra revista de sucesso que acabou sendo cancelada foi Marvel Mystery Comics. A edição 92 de junho de 1949, acabou sendo a última revista impressa. Namor com sua revista Sub-Mariner Comics, foi encerrada na edição 32 (a revista voltaria brevemente, anos depois na fase Atlas) e por fim, The Human Torch, com a edição 35, acabou decretando o fim da fase Timely. Assim como Namor, a revista do Tocha Humana, teria mais algumas edições nessa fase, até ser cancelada em definitivo. 

Na ausência dos super-heróis, a linha de quadrinhos da editora acabou se expandindo para uma ampla variedade de gêneros distintos. Entre eles: terror (muito em cima do que a EC Comics vinha fazendo), faroeste, guerra, romance, crimes e por aí vai. Tinha de tudo, menos os super-heróis. Em 1953, a editora tentou mais uma vez: Capitão América, Tocha Humana e Namor retornaram, mas desapareceram logo em seguida, o apelo já não existia mais. Para não perder espaço com suas revistas, Martin Goodman, dono da editora começou a usar o logotipo da Atlas News Company, a empresa de distribuição de bancas de jornal de sua propriedade, e assim, acabou adotando esse nome, substituindo a Timely Comics. Até 1957, os quadrinhos publicados pela editora vinham com o símbolo da Atlas. Essa diferença entre 1957 a 1961, com o surgimento do Quarteto Fantástico, mesmo com a ausência do símbolo nas capas das publicações, pode ser considerada como Atlas Comics.

No Brasil, os quadrinhos Atlas foram distribuídos por algumas editoras recém criadas, na década de 1950. Uma das primeiras foi no suplemento “Última Hora”, administrado pelo jornalista Samuel Wainer, que trouxe algumas histórias de “Kid Colt” e “Meco-Meco,” o Pato. Kid Colt, o pistoleiro dessa fase, foi publicado por diversas editoras no Brasil, além da Última Hora, Kid Colt saiu pelas editoras: La Selva, Gráfica Novo Mundo e RGE. Já Meco-Meco, era uma derivação do Pato de Walt Disney, criado por Ed Winiarski. Depois do Suplemento, Meco-Meco seria publicado também pela La Selva. Depois disso, desapareceria para todo o sempre. 

 


Meco-Meco, o Pato


Adolfo Aizen, antes de fundar a Ebal, trabalhava no “Grande Consórcio Suplementos Nacional”. E pela revista “O Lobinho” foram publicadas algumas histórias de “Apache Kid”. Criado por John Buscema, o personagem era um branco que se disfarçava de índio. O personagem é mais um na linha Western do período. Apache Kid, além de O Lobinho, foi publicado pela Ebal, RGE e pela La Selva. 


Apache Kid de John Buscema.


Nos começo dos anos 1950, o Capitão América estava nas últimas. Depois que a segunda guerra mundial terminou, o personagem estava mais perdido que bala em boca de banguela e com a criação do Universo Marvel nos anos 1960, Stan Lee e Jack Kirby trouxeram o personagem de volta. A desculpa criada foi que o Capitão América estava desaparecido desde o final da guerra e duas décadas depois, seria encontrado congelado pelos Vingadores. Mas como isso era possível, já que o personagem atuava nos anos 1950? Aí que entra a ideia, esse Capitão dos anos 1950 não era Steve Rogers, o verdadeiro Capitão e sim uma outra pessoa que assumiu o manto do verdadeiro, mas isso só seria revelado no Universo Marvel tradicional para explicar o retorno do primeiro Capitão. Essa edição é uma das últimas histórias desse falso Capitão publicado no Brasil. Essa edição foi extraída de Young Man 27 e publicada pela RGE em O Globo Juvenil Mensal 165 em 1954.


O Capitão América na fase pós-guerra

Se levarmos em conta, qual foi a principal editora no Brasil com a Atlas, esse título fica com a editora La Selva. Vito La Selva foi um dos milhares de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no início do século 20. Vito, teve como ofício a venda de jornais pelas ruas de São Paulo. Depois de algum tempo, por causa do serviço militar, retornou para a Itália – anos depois, estaria de volta ao Brasil. E à sua volta, Vito adquiriu uma pequena banca de jornal no centro da cidade. Em seguida, montaria uma distribuidora de revistas, junto com outros imigrantes italianos, iniciando o processo de distribuição de diversas revistas. Com os negócios prosperando, Vito decide publicar revistas em quadrinhos. Algum tempo depois, criaria a “Editora La Selva”. Além da La Selva, outro imigrante italiano chamado Victor Chiodi, também publicaria muitas histórias da fase Atlas. Victor fundou primeiro a “Chiodi, Oliveira e Cia Ltda” que pode ser considerada o início da Gráfica Novo Mundo. Pela Chiodi, foi publicada uma revista em 1956, chamada “Corações”. Com seis edições lançadas, Corações trouxe histórias extraídas de Loves Romances, My Own Romance e Secret Story Romances. Todos da fase Atlas. Após a Chiodi, Oliveira e Cia Ltda, nasceu a “Gráfica Novo Mundo”. Que ao lado da La Selva, foram as duas mais representativas dessa fase por aqui.


A Gráfica Novo Mundo com suas revistas ”Seleções em Quadrinhos”; “Mundo de Sombras” e “Gato Preto” ( com muitas histórias de  “Adventures Into Weird Worlds”, “Journey Into Mystery” e “Tales To Astonish”), apresentou ao leitores muitas publicações dos mais variados gêneros: romance, terror, aventura, tudo sem uma ordem específica e publicadas juntamente com outros licenciadores e com histórias nacionais. Pela Novo Mundo, podemos destacar a personagem “Lili, a Garota Atômica" (Millie the Model, no original). Lili, a Garôta Atômica foi uma das poucas personagens que foram criadas no período Timely e que manteve as suas publicações durante a fase Atlas, até chegar à Marvel. Direcionada mais para o público feminino, Lili é uma modelo que vive várias histórias na agência em que trabalha. Suas histórias com muito humor e romance fizeram muito sucesso no Brasil. A repercussão foi tanta que algumas dessas histórias foram produzidas exclusivamente no Brasil pela Novo Mundo e pela La Selva, assinadas pelos artistas Nico Rosso e Gedeone Malagola. A personagem foi publicada em algumas das edições de Seleções em Quadrinhos.

 


Lili, A Garota Atômica. Um dos sucessos dessa fase no Brasil.


A La Selva trouxe muitos quadrinhos da Atlas. Principalmente com os mais obscuros. Desses, podemos destacar “Rocky Steele”, um daqueles personagens de tiro curto, que apareceu e sumiu no mesmo momento. Rocky Steele, o Ídolo do Ringue, foi publicado na revista Seleções Juvenis em 1954. Outro com ligeiro sucesso foi com “Capitão Radar”. Com capa de Jayme Cortez, Speed Carter Spaceman, criado por Hank Chapman e Joe Maneely, foi publicado no Brasil como Capitão Radar. Com histórias de ficção científica da Atlas, Capitão Radar foi editado em alguns números de Cômico Colegial e Seleções Juvenis. O personagem era um viajante do espaço futurista e capitão da força Sentinelas Espaciais, um grupo dedicado à paz intergaláctica.



O primeiro Hulk. 


Em Noites de Terror, 3º série 31 de 1960, a Gráfica Novo Mundo, foi publicada uma história extraída do original “Strange Tales 75”. O nome Hulk surgiu bem antes do Incrível Hulk, personagem conhecido por todos nós. Essa primeira versão foi um robô criado por um cientista em uma história curta. Posteriormente a história foi republicada na Era Marvel e o Robô passou a se chamar Grutan. Essa história foi escrita por Stan Lee com Larry Lieber e desenhada por Don Heck. Logo depois, a Novo Mundo publicou um outro personagem como Hulk. Antes do surgimento dos super-heróis, Stan Lee e Jack Kirby haviam criado o primeiro Hulk. Publicado em 1960 esse Hulk é um ser alienígena peludo que possui poderes telepáticos através da hipnose. Na era Marvel, esse Hulk passaria a ser chamado de Xemnu, O Titã. Essa história foi publicada em Noites de Terror 3º série 44 em 1962




Antes do Incrível Hulk, a editora já havia usado o nome em outros personagens. 


Além da La Selva e a Novo Mundo, algumas outras editoras tiraram uma lasquinha. Editoras menores como: Edições Júpiter, Vida Doméstica, Estúdio Gráfico Garimar SA e a Regiart, publicaram algumas edições desse período pré-Marvel. A Júpiter era uma pequena editora que publicava material nacional, administrada por Auro Teixeira com Gedeone Malagola como editor. A editora, devido a diversos problemas, durou apenas alguns anos. A única revista da Júpiter com material da Atlas foi a Sepulcro, em apenas uma edição com histórias de Stan Lee, Joe Maneely e Dick Ayers

A editora “Vida Doméstica”, foi criada em 1920,como Sociedade Gráfica Vida Doméstica, onde passou a publicar quadrinhos somente em 1947. Sua principal publicação era com a revista de variedades Vida Doméstica, direcionada para donas de casa. A editora publicava uma revista chamada “Vida Infantil”, com personagens direcionados às crianças. Dos mais famosos publicados, podemos destacar o Super-Coelho (chamado também de Coelho Valente) e o fantasminha “Homer”, com roteiros de Stan Lee e arte de Dan Decarlo, chamado erroneamente no Brasil de Gasparzinho. O personagem foi uma das tentativas da Atlas de conquistar o público do verdadeiro Gasparzinho (Casper no original).


O fantasminha “Homer”, direcionado para as crianças.

A Garimar S/A, localizada no Rio de Janeiro, publicou quadrinhos entre 1957 a 1968. Na revista “Valor”, foram publicadas algumas histórias de “Jane das Selvas”. Personagens na linha garotas das florestas, criada por Don Rico e Jay Scott Pike. Já a Regiart, tinha o editor José Sidekerskis como o responsável pela editora. Uma das suas publicações com a Atlas na Regiart, foi com a revista “Fantásticas Aventuras”, de 1965.

Nos anos 1960, revistas com Sobrenatural, Terror Negro e Histórias de Terro, ambas da La Selva, trouxeram histórias que antecedem o Universo Marvel, com aquelas histórias de ficção com monstros aterrorizantes com desenhos de Jack Kirby e Steve Ditko. Uma delas com a aparição somente na capa de Groot, personagem que se tornou popular com os filmes dos Guardiões da Galáxia. 


Fin Fang Foom, na capa da revista "Maldição"


Por fim, uma das últimas editoras foi a Dado e a Signo.Waldomiro Barbosa da Silva foi um jornaleiro do Rio de Janeiro que comandava uma rede de publicações no Largo da Lapa. Waldomiro comprou alguns títulos de encalhes da APLA, como: As Grande Batalhas e Batalhas Sangrentas, com histórias de guerra da Atlas entre outros títulos. Pela editora Dado, publicou uma revista chamada Maldição. A publicação apresentava histórias de Journey, Into Mystery, Tales To Astonish e Amazing Adventures. Waldomiro ainda lançaria outra revista chamada Maldição, desta vez pela Editora Signo.

 


Primeira aparição de Groot no Brasil

Algumas últimas histórias saíram pela La Selva, no final dessa década, E com a chegada da era Marvel em 1967 pela Ebal, acabou sendo decretado o período Atlas no Brasil.


Alexandre Morgado

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2023, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics