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quarta-feira, 3 de julho de 2019

Resenha 616: Homem-Aranha - Longe de Casa


Homem-Aranha: Longe de Casa chegou já aos EUA e nesta quinta-feira finalmente chegará aos cinemas brasileiros. O filme vem com uma responsabilidade digna da marca do herói. Com todos os grandiosos acontecimentos que vimos em Vingadores: Ultimato, Homem-Aranha: Longe de Casa torna-se o capítulo final ou epílogo de uma magistral Saga do Infinito, culminando as três primeiras fases do UCM nos cinemas.

É curioso estar vendo essa missão de pontuar quase 10 anos de UCM em Homem-Aranha: Longe de Casa, isso porque esse filme é fruto de uma parceira entre dois estúdios e que sequer sabemos por quanto tempo irá durar este acordo. Mas considerando o quão integrado se mostra 'Longe de Casa' com o UCM, é de se esperar que esse 'duo' entre a Marvel Studios e a Sony perdure muito tempo. É pelo que torcemos.

Confirmado em trailers e entrevistas, todo mundo já deve saber quando for aos cinemas que Homem-Aranha: Longe de Casa se passa após o Ultimato. Mais do que isso, ele é o filme que literalmente trabalha com o cenário de um mundo onde as pessoas desaparecidas pelo estalo retornam. Todas aquelas perguntas curiosas que você se fazia sobre famílias seguindo adiante, irmãos mais velhos se tornando os 'caçulas' das famílias ao retornarem e outras possibilidades imaginadas são colocadas ao longo do filme de um jeito mais descontraído. Esse é o mundo que os heróis Marvel seguirão adiante. E nada melhor que o herói mais 'humano' do UCM para apresentá-lo.



Contudo, o mundo de Homem-Aranha: Longe de Casa também é um mundo que tem que lidar com a ausência de um Homem de Ferro. Tido como o grande herói daquele universo, aquele que se sacrificou pelo bem maior, a figura de Tony Stark, é lembrada em cada canto deste filme e levanta a pergunta - Quem será o próximo Homem de Ferro? Birras a parte de alguns fãs, qualquer um sabe que pela lógica esse manto recairia nos ombros do Homem-Aranha vivido por Tom Holland. Mas é esse o desejo de Peter Parker? Ele quer tamanha responsabilidade?

De todas as versões de Homem-Aranha que já foram aos cinemas, é a de Tom Holland a que mais te convence de que estamos lidando com o Homem-Aranha do colegial, aquele mesmo que foi imaginado originalmente por Stan Lee e Steve Ditko e que fez a gente se apaixonar por suas histórias. E como todo jovem nesta fase da vida, há muitos outros problemas e dúvidas se passando na cabeça, além das confusões do mundo lá fora que precisa ser constantemente salvo. Parker está de luto pela morte de seu 'tutor heróico', confuso de estar num mundo onde a vida seguiu por cinco anos e sentindo-se sobrecarregado em ser o amigão da vizinhança. Quando surge a excursão do colégio pra Europa, Peter a encara como um momento que ele precisa só pra ele e deixar por alguns dias a vida de Homem-Aranha. Há algum sentimento do arco "Homem-Aranha, Nunca mais" aí, mas nada tão abrupto. É uma férias do uniforme, apenas.



Tirar o Homem-Aranha de sua vizinhança pode parecer meio estranho para um herói que é a cara de Nova York, mas ao mesmo tempo traz um 'frescor' aos filmes do personagem. Não só Peter, como todos os seus colegas que o acompanham - Ned, Michelle, Betty, Flash, Brad e os professores, são bem valorizados ao longo da história, com situações divertidíssimas durante o tour pela Europa. Por sinal, este é um ponto fortíssimo dessa nova interação do personagem - seu elenco de apoio. É algo que sempre foi importante nos quadrinhos e nos filmes anteriores, tirando a relação com a Mary Jane ou Tia May, o resto era nada mais que cenário. Em Homem-Aranha: Longe de Casa, os biótipos de cada um dos colegas podem até ser bem diferentes do que você estava acostumado, mas eles ao menos tem vida própria e seu tempo de tela com suas próprias situações engraçadas.

O destaque, obviamente, vai aqui para a relação de Peter Parker e Michelle, vivida mais uma vez por Zendaya. Apesar de não ser aquela Mary Jane dos gibis, praticamente o roteiro de Longe de Casa não se acovarda mais e só se refere a ela agora como a 'EmeJay' (MJ). Ela não é ruiva, sua personalidade é completamente diferente, é outra pessoa. Ainda assim, inevitavelmente estava destinada a ser o par romântico do herói desde o filme anterior e isso culmina aqui. O legal é que não se trata de um romance convencional, eles se gostam, mas também se provocam, tem seus atritos, ainda tem um perfil de adolescentes descobrindo como é a vida. Não é a história de amor tradicional que você viu outras vezes. É bem mais inocente. O bom disso é que o filme não se perde em um romance insosso e dá toques de que aquela 'Emejay' estará ali para ser uma companheira do herói também. 



Mas nem tudo nessas férias são curtição. Quem viu os trailers sabe que um perigo assola o mundo, estranhos monstros com poderes elementais estão aparecendo por aí causando destruição do nada e eis que Nick Fury, Maria Hill e um protótipo de nova S.H.I.E.L.D. decide tirar o Homem-Aranha de sua folga para lidar com a situação. Com isso, Peter terá alguns agentes em campo no seu pé, uns recursos tecnológicos que podem ser um tiro pela culatra as vezes,  e até mesmo um novo traje pra preservar sua identidade (o que lhe rende um apelido engraçado). Só que desta vez Parker não estará sozinho, pois conta com a ajuda de Quentin Beck, um herói tecnológico-místico que diz ter vindo de outra realidade e que tem experiência contra essas criaturas.

Jake Gyllenhaal é quem faz o papel de Quentin Beck no filme, que é mais pra frente apelidado de Mysterio. A partir daí, dependendo do grau de conhecimento que o espectador tem do personagem, já vai poder tirar suas próprias conclusões sobre o que pensar dele no filme. Mas tenho que pontuar de cara aqui que você verá um show de atuação por parte do Jake Gyllenhaal. Sempre fui muito dividido sobre algumas interações de vilões do aranha nas telonas. De versões muito boas a péssimas dependendo do caso. Pra mim, Alfred Molina era o topo da lista com seu Doutor Octopus. Mas agora o lugar fica com o Mysterio de Jake Gyllenhaal. 



Visualmente, tudo é certo nele, a roupa, o capacete, a demonstração dos seus poderes e, mais adiante, a real natureza desses seus poderes. Por outro lado, as motivações de Quentin Beck, a medida que vão se revelando, são muito bem vendidas pela atuação perfeita de Gyllenhaal. Ajuda muito você ver a boa amizade entre Jake e Tom fora das telas em entrevistas, porque isso se reflete em parte do filme na interação dos dois que juntos precisam derrotar os elementais e, em seguida, dividem conversas intimas depois do combate. Não dá pra falar mais além sem pisar no perigoso território dos spoilers. Mysterio é o maior acerto de Homem-Aranha: Longe de Casa.

A grande virada da trama é certamente previsível pro leitor, mas é muito bem executada. E eu acho que é isso que a maioria do público que ver, nada de surpresas que sejam sensacionalistas e mudem demais o que você conhecia das histórias em quadrinhos, mas sim uma trama bem construída que dê gosto de se acompanhar. E o legal aqui é que não só deram um jeito de ser fiel aos quadrinhos, mas também integrar tudo muito bem no UCM. Há cenas que rementem a outros filmes que você pulará da cadeira. No entanto, a maior reviravolta do filme estará no pós-crédito. São duas cenas extras, portanto, fique na cadeira e se segure. São as mais impactantes feitas pra um filme de heróis até hoje. Obviamente, falaremos dela em momento oportuno.

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No balanço geral, Homem-Aranha: Longe de Casa é um filme que realmente faz jus as boas avaliações que vem recebendo nas críticas. É superior ao seu antecessor, tem construções mais completas de todos os seus personagens envolvidos. E as pessoas preocupadas com o Homem-Aranha estar na sombra do Homem de Ferro, podem se acalmar. Sim, isso é um mote que tem no filme, é uma constante essa 'cobrança', mas no final ficará bem claro a posição do Teioso no UCM. E, sinceramente, eu espero, que o Homem-Aranha de Tom Holland esteja por aí se balançando por muito, muito mais tempo. A crescente base de fãs dele é um bom termômetro pra mostrar que a coisa deu certo.

Coveiro

domingo, 9 de junho de 2019

Resenha 616: Fênix Negra não é o pior filme dos X-Men, mas sofre pelo desgaste da franquia

No momento da publicação dessa resenha, sequer chegamos ao fim do final de semana, mas o fracasso do filme da Fênix Negra já é inevitável. Dentro dos EUA, perdeu até mesmo a posição de primeiro lugar para uma animação. Dentro da previsão de bilheteria que já era péssima no começo, teve um desempenho bem pior e não ajuda nada quando os principais avaliadores de score do filme o pontuam de forma tão baixa. Eu assisti esse filme logo depois da estreia, mas esperei - assim como fiz com o Ultimato até o final de semana para entregar a resenha. Assim, um pouco mais livre pra falar de alguns moderados spoilers, posso analisar melhor o filme pra vocês.



Antes de mais nada, é bom começar dizendo que o desempenho de um filme no primeiro final de semana não mede sua qualidade. Se X-Men: Fênix Negra esta indo mal não é pela qualidade do filme. Vários fatores entram aí, como a maneira como ele se vendeu até sua estreia e como foi o desempenho dos filmes anteriores no gosto dos fãs. No caso em questão, Fênix Negra se saiu muito mal em ambos os casos. Seus vários adiamentos da data de lançamento não cheiraram bem ao público, junto com rumores de que testes de audiência denotaram falhas cruciais que precisavam de refilmagens só pioraram a má fama. Já o que dizer da franquia, com seus altos e baixos, é complicado. X-Men tem mais de 19 anos, é emocionalmente muito ligado a uma geração de fãs que passou a conhecê-los só em 2001. Porém, mesmo entre seus árduos defensores, há conflito hoje. Os últimos filmes dos X-Men que voltaram a ter a 'cara' do Brian Singer se revelaram no mínimo mornos, por assim dizer. O frescor que Matthew Vaugham trouxe com 'Primeira Classe' simplesmente evaporou com as repetições de temas de Singer de novo na franquia. O ar de final pontual que 'Dias de um Futuro Esquecido' modelou (apesar de suas falhas), perdeu brilho com o que veio depois em Apocalipse.

Só que com X-Men: Fênix Negra, temos Singer com o dedo fora de qualquer coisa do filme de novo, inclusive da produção. Assume seu lugar o roteirista e produtor Simon Kinberg, que é um estreante nesse lado da câmera, mas não podemos dizer que ele seja alguém completamente perdido no assunto. Em muitos filmes problemáticos, como foi o do Quarteto Fantástico de Josh Trank, dizem que Kinberg entrou como bombeiro e que foi ele que segurou as pontas na sala de edição pras coisas saírem de alguma forma. Aquele Quarteto foi um fiasco, eu sei. Mas tirar 'leite daquela pedra' não deve ser uma algo fácil. Fora isso, é graças a Kinberg que os quatros atores que se mantiveram desde 'Primeira Classe' voltaram, mesmo com o contrato já acabado. E olha que temos aí Jennifer Lawrence que notoriamente tinha prometido não voltar nunca mais.

E tenhamos nossos problemas com o que for a direção e planejamento que a franquia tomou (eu particularmente nunca aceitei bem tirarem Vaughan das sequências e seus planos recentemente revelados provam que seria um rumo bem melhor), não podemos ser tão inconsequentes de chutar esse filme pelo que ele não é. Ele não é o pior filme dos X-Men. Longe disso. Por mais que a franquia esteja desgastada, Simon Kinberg fez um trabalho muito decente nesse filme, o que certamente o coloca numa posição muito melhor que X-Men: Apocalipse e X-Men: O Confronto Final, por exemplo. Eu ouso até a dizer que melhor que o primeiro X-Men de 2001, do qual nunca gostei.



Se formos analisar todo o primeiro ato deste filme, chego a acreditar que é dos mais bonitos e que poucos outros diretores de filmes anteriores conseguiram levar as telas uma narrativa tão conectada e dinâmica. A cena do resgate dos astronautas bebe muito do que acontece nos gibis,  mas com uma assinatura própria, tem uma fotografia belíssima (que Kinberg tem experiência desde que produziu Perdido em Marte) e um timing muito exato pra você entrar na situação. Mesmo o leitor que já sabe o que vai acontecer, vai sentir a tensão bem trabalhada ali. Fora que os efeitos especiais, algo que é visto ao longo de todo o filme, parecem ter evoluído aos saltos quando comparado a Apocalipse e suas maquiagens meia-bocas. É uma cena de origem da Fênix perfeita. É fiel, é bonita, é redonda e sem enrolação.

Quando volta a a Terra, Kinberg já prepara um terreno até então pouco explorado nos filmes anteriores que pareciam se perder sempre nos dramas envolvendo os mesmos personagens. Desta vez, temos um Xavier que está envaidecido pela nova situação de ser o patrono dos heróis do planeta, uma Mística sutilmente incomodada por estar arriscando vidas mutantes para fazer 'planfetagem' para os humanos e um drama pessoal da Jean, onde descobrimos que parte do seu passado foi encoberto por Xavier e, quando isso vem a tona junto com o descontrole que a Força Fênix traz pra personagem, transforma-a em uma bomba relógio de nível atômico. O segundo ato do filme também vai bem, Kinberg não mentiu quando disse que a Jean de Sophie Turner era notoriamente a protagonista do filme e que por isso abdicou dos X-Men no título para deixar só o 'Fênix Negra' em destaque. 



O maior erro está no fato do pessoal do Marketing ter resolvido entregar aquilo que seria o maior impacto deste longa - A morte da Mística. Seria bastante inesperado e ajudaria melhor se pegasse todo mundo de surpresa. Mesmo que você reclame de como trabalharam a Mística mais 'boazinha' neste reboot, vai entender que o papel dela ali não é te comover como espectador, mas motivar a mudança de dois personagens sensivelmente ligados e apaixonados por ela - Magneto e Fera. Se você foi aos cinemas sem saber desse detalhe, garanto que aproveitou bem mais o filme. Sendo assim, esses são de fato os personagens que realmente importam no filme e tem história a contar. Noturno, Tempestade, Pietro e quaisquer outros tem seus momentos, mas esse não é o filme deles.



Nem tudo, obviamente é  só palmas até aí. O jeito como apresentaram Genosha no filme é de dar vergonha. Se de um lado você tem efeitos especiais tão refinados em cenas espaciais, que sentido faz ter um ilha onde mutantes moram em simples containers sem qualquer construção mais elaborada quando você tem como líder um cara que simplesmente pode modelar metais e construir qualquer coisa melhor ali? Fora isso, mais uma vez a franquia cai no seu erro de introduzir de novo personagens aleatórios mutantes, com poderes completamente distintos de suas contrapartes dos quadrinhos e sem trabalhar nada da personalidade deles fora serem meros capachos de poucas falas. Fora isso, temos uma cena de ação lá em Genosha completamente aleatória e desnecessária, que só cria uma baita 'barriga' esquisita no filme.

Outro erro fatal é o jeito que apresentaram os D'Bari, os aliens que provavelmente seriam Skrulls se não fossem certas mudanças finais no filme para desviá-lo de qualquer similaridade com a Capitã Marvel. Como vilões acessórios do filme, esses ETs acabam se saindo como criaturas mal trabalhadas e que deixam o filme só confuso. O fato de eles serem metamorfos, por exemplo, só serve pra justificar para eles tomares corpos humanos (só mudam uma vez de forma) e continuarem desapercebidos como terráqueos no resto do filme sem necessidade de efeitos especiais. A maioria deles só serve mesmo como mera peças descartáveis lá pra grande briga final. Vuk, a personagem de Jessica Chastain, incorpora basicamente o 'grilo falante' maligno pra Jean, e seu plano ora é usar a própria Jean como arma, ora ela mesma ser a detentora da Força Fênix. O que de fato ela e os D'Bari queriam, fica mais subentendido do que claro pra você. Particularmente, eu gostava mais do rumor quando Chastain era uma representação simbólica da Força Fênix e Jean era melhor tratada como vilã por inteiro.



Por fim, temos o terceiro ato, a tal parte que foi extremamente alterada nas refilmagens, mas que mesmo assim eu acho extremamente falha e difícil de engolir. Longe de mim questionar a parte da ação. Como falei antes, talvez Fênix Negra seja o filme mais 'bem cuidado' nos efeitos especiais de toda a franquia. Há cenas empolgantes quando Magneto entra em ação pra valer e com o Noturno enfurecido (por mais que sua mudança de temperamento seja repentina ali). Contudo, o ato se torna um caminho para a previsibilidade de como tudo vai se encerrar a partir daí. Primeiro, temos uma mudança pra lá de rápida de opinião daqueles que estavam ali para matar a Jean. Soa como uma resolução de poucos segundos porque precisa apenas acabar o filme. Depois, é decepcionante o que mostraram como combate derradeiro entre Jean contra Vuk e o restante dos D'Bari. E a resolução final, se algum momento te soar familiar, não ache que é só impressão. Há visualmente bastante coisa ali daquela cena com o que já vimos em Confronto Final.



Se podemos dizer que há um grande problema no filme, é justamente que Kinberg tentou se apegar demais em fazer a sua versão de 'Confronto Final' de um jeito certo. Há notórios momentos em que você percebe descaradamente que há uma pincelada do filme anterior neste. Temos confronto no bairro da casa dos pais da Jean de novo, Fênix quase desintegrando Xavier de novo, e, por fim, um sacrifício da Fênix de novo. Até a última cena no parque, bem, é uma menção a cena final daquele filme. E se referir tanto a um filme que sabidamente os executivos da FOX reconhecem como um erro, é um mistério que eu custo a entender.

Mas fora isso, como filme isolado, eu acho que X-Men: Fênix Negra tem seus bons momentos. Troca a ladainha repetitiva de Xavier e Magneto por um desenvolvimento conflituoso entre a Jean e seu Tutor. Inverte a posição de Charles, que em seus excessos de altruísmo, acaba cedendo ao ego ao ponto de arriscar seus próprios alunos. Cria relações tensas entre ele e Hank, que infelizmente se reverteram de modo pueril no final. Mesmo que longe do que seria ideal, desenvolve melhor o amor entre Scott e Jean do que qualquer outro filme anterior onde Wolverine acabava eclipsando o Ciclope. Enfim, mesmo com algumas atuações protocolares, é um filme que procura trabalhar melhor as relações dos personagens e com interações novas do que aquelas mesmas e mesmas que cansamos de ver antes.



Bem, o filme está já aí, dificilmente conseguirá reverter a catástrofe que está sendo sua bilheteria, e padece mais pelo erros do passado do que pelo produto que está aí hoje. Quem nunca teve problemas com franquia, ou não criou um ojeriza com os personagens até aqui, vale ainda dar uma conferida no dia mais barato da semana. É claro que não é o melhor final que poderíamos ter após esses 19 anos, mas graças as refilmagens há uma sensação de desfecho. Dizem por aí que a ideia original era ser um filme em duas partes. Não teria fôlego pra isso. O universo X nos cinemas vai precisar dar uma boa adormecida agora para quem sabe um dia com novo vigor e forças surgir das cinzas em uma outra realidade agora dentro de sua casa.

Coveiro

domingo, 28 de abril de 2019

Resenha 616: O filme e fenômeno chamado Vingadores: Ultimato

Quase quatro dias após a estreia oficial nos cinemas brasileiros, estamos finalmente vindo falar aqui mais abertamente sobre Vingadores: Ultimato. Isso porque ponderamos que se a ideia é falar sobre esse filme, que tentou ser o mais secreto de toda a história do estúdio até aqui, não havia jeito de comentar qualquer coisa sobre ele sem esbarrar em eventuais spoilers, nem que seja os mais moderados. Seria até imprudente da minha parte lançar uma resenha no site se desde o começo da semana instauramos aqui e nas nossas redes sociais uma campanha anti-spoiler. O nosso 'auto-embargo' pra começar a falar do assunto acaba agora a noite.  Sendo assim, minha recomendação continua sendo a mesma se você não viu o filme ainda e quer fugir ao máximo sobre o tema abordado por ele. Não continue lendo nossa resenha, nem leia a de ninguém mais. Se conseguiu escapar de todo e qualquer spoiler até agora, sobreviva mais um pouco e vá incólume para os cinemas. Vai me agradecer depois.



Mas se você já viu o filme ou não é tão grilado assim em saber antecipadamente com o que vai se deparar na sala de cinema, podemos seguir a leitura. Ainda assim, a ideia dessa resenha inicial que você encontrará aqui é ser um texto bastante superficial pra um filme tão audacioso e cheio de camadas como é Vingadores: Ultimato. É como uma ponta introdutória para vários outros artigos mais densos que pretendo colocar aqui no Marvel 616 no decorrer dos próximos dias. Trate como uma olhada rápida assim que se abre a embalagem da caixa de brinquedos antes de explorar tudo que tem lá dentro. Um texto só pra falar sobre esse filme é pouco. O que temos é só o começo pro que temos de falar do Ultimato.

UMA CONCLUSÃO, UM MARCO E UM SONHO POR MAIS

Por várias vezes, Vingadores: Ultimato foi definido por seu produtores, diretores e elenco assim. É um ponto culminante da história dos 22 primeiros filmes da Marvel Studios em seus 10 primeiros anos. O que antes era encarado como três fases, chegou até mesmo a ser redefinido por Kevin Feige como sendo 'A Saga do Infinito'. Os seis MacGuffins, as Joias do Infinito, que praticamente direcionavam os mais diferentes filmes do UCM até um só ponto já tinham nos mostrado seu poder e afligido nossos heróis no filme anterior. Com um estalar de dedos o vilão venceu, os heróis perderam e um clima amargo pairou no resto do mundo. Vingadores: Ultimato começa assim seus primeiros minutos - relembra as perdas pelos olhos de um dos heróis que estava ausente no filme anterior, revela como o mundo ficou mais triste depois do arrebatamento do Titã Louco e  expõe como os heróis sobreviventes não podiam suportar viver com aquele dissabor.

Com o foco nos heróis Vingadores originais, o filme tenta reunir os poucos que sobraram e estão afastados, como Tony Stark, e ganham ainda uns reforços poderosos, na figura da Capitã Marvel. Quem apostou que a cena pós-crédito fazia parte do filme se enganou, ela na verdade acaba se tornando essencial para entender como ela surge lá. Uma das poucas coisas que sabemos pelos trailers é que os heróis vão tentar mais uma vez vencer o vilão. Eles acreditam que devem isso aos heróis caídos. E a gana que a Capitã Marvel tem parece reacender o espírito de alguns deles (nem todos) para a revanche. Mas mesmo tentando uma nova retaliação contra o titã louco para recuperar as joias do Infinito, Thanos sempre parece estar um passo a frente. É um vilão que não procura deixar nenhuma ponta solta em sua meticulosa vitória que vimos no filme anterior. Para sobrepujá-lo, é preciso ir além... e não estamos falando em termos de distância aqui.



Inevitavelmente, chegamos ao ponto em que é preciso falar neste texto um spoiler evidente. Quem nos acompanha sabe que todas as pistas deixavam antes para uma teoria e nossas suspeitas de antes sobre viagem do tempo eram verdade. Era um plot já deduzível, mas revelar isso aqui não chega nem perto das surpresas e reviravoltas que esse recurso causa na trama ao ser tão bem usado pelos diretores, Joe e Anthony Russo. A ideia de pontuar o grande final dessa 'Saga do Infinito' relembrando os melhores momentos da história do UCM ao mesmo tempo em que entrelaça outros filmes considerado pouco importantes não é só genial, é comovente para o fã, novo ou velho, que acompanhou tudo isso por uma década.

Para quem viu a cena pós-crédito de Homem-Formiga e a Vespa, já deduziu que Scott Lang seria uma espécie de coringa em Vingadores Ultimato. Toda a mecânica sobre como o reino quântico pode ser remodelado como uma máquina do tempo fica por conta de um 'cientifiquês hollywoodiano' que não interessa a história, mas se você já conferiu o filme, sabe que os irmãos Russo colocaram lá em cima de um pedestal a discussão de teorias de viagem no tempo existentes na ficção científica. Os irmãos Russo e Kevin Feige já falaram mais de uma vez como o tema os agrada e apontaram inclusive em entrevistas suas principais influências. Em vários momentos, eles puxam você pra dentro das explicações no filme, sempre em meio a uma piadinha, e destilam qual teoria o UCM irá se firmar como base pra contar sua história. A discussão sobre isso é tão boa que merece e vai ganhar um artigo a parte da gente. Aguardem!



Não é segredo também que Vingadores: Ultimato é um filme que foi montado para contar o que pode ser a história final dos seis Vingadores originais. Não é a toa que eles estão entre os sobreviventes, não é segredo que o contrato de alguns está no fim, não é spoiler nenhum eu dizer que essa é a jornada final de alguns. O Clint Barton de Jeremy Renner, que ficou totalmente ausente no Vingadores anterior, tem um dos arcos de história mais bem construídos para o personagem até aqui e vai fazer você desculpar os Russo imediatamente de tê-lo deixado de fora antes. A Viúva Negra de Scarlett Johansson, que foi criada para ser uma espiã fria e calculista, deixa extrapolar suas emoções e destaca o quanto a família Vingadores é importante pra ela. Esse talvez seja o filme mais importante dela, antes é claro de seu esperado filme solo no ano que vem. 

O Bruce Banner de Mark Ruffalo vai finalmente revelar o que pode ser a evolução máxima do seu personagem. É algo que o leitor de quadrinhos deve conhecer bem até, deve agradar muita gente com essa nova pegada que dão a ele (ou não, vai entender o fã temperamental do Verdão). Já Thor de Chris Hemsworth, afligido por muita dor e remorso, passará por umas mudanças que ninguém antecipou,  parece resgatar um pouco do humor de Thor: Ragnarok, e no decorrer tentará achar de novo o seu caminho ao encontrar as palavras certas para se soerguer. Vale destacar ainda que Hulk e Thor são certamente os personagens que mais foram transformados com o passar do anos na história do UCM, se você olhar pra eles no seus respectivos começos neste universo e agora nesta etapa final do Ultimato vai realmente ficar intrigado.

Mas obviamente, não há comparações quanto ao espaço de tempo e importância na trama que o Capitão América de Chris Evans e o Homem de Ferro de Robert Downey Jr têm no filme. Eles são os alicerces dessa grande história que se formou ao longo do tempo, têm suas diferenças que os colocam quase como opostos, mas que somente juntos podem reverter qualquer situação. Toda essa relação conflituosa dos dois é tratada com um novo sabor no filme, levando-os juntos a um caminho quase impensável para viver certas experiências e nos expor o mais íntimo desses dois heróis favoritos do grande público. Certamente, rever a jornada deles do começo até aqui deve fazer todo mundo se emocionar, chorar, sorrir com um canto de boca.



Os demais personagens que ingressam aqui tem todos sua função. Homem-Formiga inevitavelmente é o vingador não original que mais tem desenvolvimento no filme. Capitã Marvel certamente vai pegar de surpresa o público com sua participação em vários momentos do filme. Rocket mesmo sozinho representa como nunca o papel dos Guardiões de James Gunn ali. Nebulosa tem um arco particular magnífico e divide cenas importantes com o Máquina de Combate, com que de certo modo se relaciona com ela por motivos evidentes. Outros tantos fazem participação especial ao longo do filme, cada qual no seu tempo e com justa funcionalidade. Não dá pra falar mais além deles sem entregar muito do filme. Mais saiba que não tem exposição gratuita.

O filme, por sinal, mesmo com 3 horas não enfada. Seja nas cenas de ação ou nas cenas de discussão, você não sente o tempo passando. É tudo muito fluido. Se você quiser dividi-lo tradicionalmente em atos, vai perceber que na verdade os diretores te deram um filme '3 em 1'. Do jeito que foi montado, cada uma hora de Vingadores: Ultimato é como se fosse um filme te dando uma experiência diferente. E em cada um deles você vai encontrar momentos para rir, momentos para se emocionar, momentos para pular da cadeira de tanta emoção e também momentos para refletir. O último 'ato' é certamente o mais impactante, é catártico e impossível de se imaginar que será repetido de novo na história dos cinemas. E tudo isso é profundamente recheado de referências aos quadrinhos e ao próprio universo criado nos cinemas. O artigo que falaremos de Easter Eggs certamente vai ser algo monstruoso.


No fim, quando acaba, desta vez sem cena pós-crédito para você aguardar, há certamente um conflito de emoções para o espectador. De um lado, você pode lamentar porque de muitas maneiras o filme é um final e você pode sentir um desconsolo momentâneo. Do outro, esse é um fim que lhe satisfaz, é uma história que realmente tem uma jornada bonita que você vai querer assistir ela outra vez. E ainda que seja um fim, te deixa com algumas sutis pontas que com um olhar mais cuidadoso podem significar muito para o futuro.

Está disposto a viver uma nova jornada com outros heróis para acompanhar?

Coveiro

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

RESENHA 616: Monstros à Solta



Já faz um tempo que não soltamos alguma resenha de material nacional aqui no site e temos uma razão para isso que explicamos já aqui. Mas eis que estamos tentando retomar as coisas, aproveitando reforma da identidade visual do site e eis que resolvemos retomar o comentário sobre essas histórias de novo. Minha escolha de cara foi a minissérie Monstros à Solta. Aproveitando todo o clima que se prepara pra um novo filme de Godzilla e aproveitando que os Monstros foram uma parte importante desses 80 anos da Marvel achei que seria uma boa pedida.

A minissérie no Brasil começou a ser publicada no ano passado, mas o terceiro volume e conclusão final só cheguei a encontrar em bancas no mês de Janeiro. Saiu aqui em três partes, misturando a minissérie principal de cinco volumes e os oito tie ins embaralhados numa narrativa que confesso é até difícil de acompanhar. O roteiro é duplamente assinado por Cullen Bunn e Jim Zub, mas a arte praticamente fico pra um artista diferente em cada edição. Isso sem contar as outras equipes criativas diferentes dos tie ins.

Confesso que inicialmente, quando a Marvel promoveu isso quando saiu lá fora, a expectativa foi grande de que veríamos uma nova linha de Terror da editora. Calhou pra virar uma história de Monstros, mas que até que teria seu apelo se resgatasse algum apelo aos clássicos. O que ocorreu foi algo bem distante disso, infelizmente.

A narrativa começa já bem confusa, colocando o leitor no meio de uma série de ataques mundiais em que os heróis parecem ser só formigas tentando se defender. Ninguém sabe direito porque estão ocorrendo esse ataque, porque tem monstros caindo dos céus e quão a motivação deles, se há alguma. Um sinal do que pode ser a trama acontece apenas no final quando um garotinho que parece ter o hobby de desenhar monstros é abordado por algumas criaturas clássicas do anos 50 e 60 da Marvel e se dizem convocadas por ele.

É preciso avançar mais nas edições 2 e 3 para termos alguma noção a mais da confusa trama. Duas personagens entram em narrativas paralelas para isso. Uma é Elsa Bloodstone, a filha do lendário Ulysses, o caçador de Monstros, que aqui está buscando pistas através de cidades atacadas recentementes, desenhos e simbolos esquisitos até concluir que apenas o nome de um garotinho chamado Kei Kawade parece ter relação. Já o outro nome é praticamente "NOVO" ao leitor brasileiro que nunca teve acesso a edições traduzidas das histórias da Garota da Lua e o Dinossauro-Demônio. Praticamente temos que deduzir que a menina Lunella Lafayette é uma superdotada e que é a primeira a destacar que a chegada desses 'monstros do céu' é apenas o começo de algo maior.



Somente lá pra terceira edição da minissérie é que se damos conta de que há dois grupos diferentes de Monstros. Tem aqueles que estão vindo do espaço, que ouvimos falar pela primeira vez no tie-in do Hulk que sãos Leviatãs, e o outro que parece funcionar como uma espécie de avatares de Kawade pra proteger a Terra. Literalmente, é como se os roteiristas dessem a Fin Fang Foom, Goom e seu filho Googam, Xemnu, Sporr, Monstrom e tantos outros clássicos o status de 'forças protetoras' da Terra como o Godzilla em seus filmes.

A história então passa a colocar Ken Kawade ou Kid Kaiju (Como é batizado depois por Miles Morales) como o centro da história, fruto de uma profecia não só dos Inumanos da Terra, mas dos Inumanos Universais, que é capaz de comandar as criaturas com sua 'marca'. Em contrapartida, isso atraiu para ele um inimigo da mesma profecia, a Mãe Leviatã, que assim como fez em outros mundos, vem a terra para desafiar o Convocador como também arrasar este planeta.

A história que deveria ser a maior forte nas cinco edições acaba bem abaixo do esperado. Tem uma baita crise de identidade em se firmar ora como uma narrativa de desastre apocalíptico e ora como uma história acerebrada de briga de monstros. Os oito Tie-ins praticamente não agregam nada, aproveitando apenas a temática de monstros para fazer sua própria história. Apenas metade do tie-in do Hulk com a irmã do Amadeus Cho parece se preocupar em contruir algo pra trama principal. E de todos, o único recomendado por mim seria o do Doutor Estranho no qual o roteirista Chip Zdarsky tem talento pra criar algo interessante bem a parte ao desenvolver a dinâmica entre o Mago Supremo e o monstrdo Googam. Em segundo, fica o tie in do Guardiões da Galáxia onde Chad Bowers e Chris Sims se preocupam em desenvolver algo pros personagens.



Na última edição, vemos que para vencer a Mãe Leviatã, Kid Kaiju tem que ir além dos seus conhecidos poderes de Convocador. Então, ele não só cria novos monstros com seu desenho como também é capaz de uní-los como robôs de um sentai e liderá-los em batalha. Só assim a Mãe Leviatã é morta, seu exército é afungentado e a Terra está bem outra vez. Os monstros clássicos da Marvel são dispensados, mas agora não se comprometem em ser os caras bons. Afinal, eles mesmos tem seus planos de dominar o planeta um dia.

Ken Kawade ganha então o status de novo personagem inumano da Marvel, morando agora com seus pais e os monstros criados na afastada Ilha Mu e meio que sendo tutoriado pela Elsa Bloodstone. A editora chegou a dar a ele uma curta revista mensal de 12 edições e aparece ainda na minissérie inédita no Brasil 'Venomizado' e também nas novas histórias dos Campeões lá fora.



Minha avaliação final é que é uma ideia jogada na vala. Poderia ser bem melhor, retrabalhar os monstros clássicos, dar um ar mais tenso ou de suspense a trama e ser menos rocambulesca. De qualquer modo, confesso que se a ideia no final era contar uma versão marvel do "círculo de fogo", eu não sou bem o público alvo. Mas vamos ver como o Kid Kaiju se densenvolve em futuras histórias daqui pra frente.

Coveiro

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Editorial 616: Sobre a ausência das resenhas de material nacional no site



Olá a todos!

Antes de mais nada, devo começar justificando a ideia desse espaço. Tendo em vista a nossa existência de mais de doze anos de site e que sabemos que muitos leitores nos acompanham desde muito antes,  quando eramos apenas uma comunidade do Orkut, fazia já um tempo que eu achava necessário um canal de comunicação para uma conversa meio que 'off' para explicar algumas eventuais mudanças no site, alguns avisos necessários no decorrer do tempo ou mesmo apenas manter um contato mesmo que mínimo para todos que vem aqui diariamente, muitas vezes sendo parte de suas rotinas diárias. A nova mudança visual do site me motivou a começar isso então. Eis que essa sessão Editorial 616 se abre, quase como que um diário de bordo dessa nova empreitada. E para o capítulo 2019.0001, eu queria explicar com mais detalhes a ausência das resenhas de revistas nacionais no Universo Marvel 616.

Deve ter sido estranho para vocês ver que nós, que praticamente tínhamos uma rotina quase que diária por 10 anos de manter resenhas de todos revista nacional publicada no site, de repente, praticamente deixar isso de lado nos últimos um ano e meio. E eu mais do que vocês todos lamento imensamente isso. Infelizmente, acabou se tornando impraticável manter como até um ano e meio atrás fazíamos e há várias razões para isso ter acontecido. Poderíamos enfrentar e passar por cima de qualquer uma delas em outro momento, mas não quando toda essas razões se manifestaram juntas de 2017 pra cá.

A primeira delas pode ser quase que facilmente deduzidas por vocês. Nossa descontinuidade com as resenhas praticamente vem com a crise dos quadrinhos de 2017, quando lá pelo segundo semestre a Panini teve sérios problemas de distribuição e até mesmo nas grandes capitais teve dificuldade de fazer chegar com regularidade seu material. Até mesmo meu caso em particular, que moro em São Paulo nos últimos anos, tive (e ainda tenho) problemas em encontrar algumas edições. Começou com o imprevisto em achar os números em bancas que com o avançar dos meses se estendeu também para livrarias em comic shops. Isso imediatamente comprometeu minha ordem de leitura, o que levou a quando finalmente pude completar alguns números faltantes, ter um volume considerável de material atrasado para manter em dia a ponto de conseguir colocar de novo essas histórias no site.

Ainda agregado a  essa 'crise', vem uma segunda razão, que vocês poderiam explicar melhor do que eu até. Após uma crise na distribuição no final de 2017 (sem querer entrar na discussão dos problemas da antiga distribuidora nacional com a Panini), eis que não demorou muito para as revistas entrarem numa onda crescente de aumentos por todo o ano de 2018. Além da dificuldade de encontrar as edições, os leitores tinham dificuldade financeira em adquiri-las. Não é preciso ser um grande entendido no assunto para saber que isso leva a uma avalanche não só de queda relativa nas vendas pelo total de produtos no mercado. Menos leitores de material nacional por sua vez leva também a um desinteresse até mesmo dos leitores do site por esse tipo de artigo aqui no 616. Acredite quando digo que os números que nunca foram os mais fortes caíram bastante.

Ainda assim, mesmo que não colocássemos o número de leitores dos artigos na conta, vocês teriam que considerar que até eu sou um leitor que adquire esse material da mesma forma que vocês e precisei passar a escolher o que poderia levar por mês dentro dos meus limites financeiros. E não só eu, as resenhas do site era onde tínhamos mais colaboradores participando, e os mesmos teriam que reavaliar se valeria ou não comprar aquelas mesmas revistas depois de um aumento tão sensível no preço de capa. É algo até que teremos que reavaliar no futuro quando tentarmos reativar as resenhas por aqui, buscar novos colaboradores que ainda leiam as edições e desejam dedicar alguns minutos escrevendo algo pra o site.

Por fim, uma última razão que até então nunca trouxe aqui a tona e nem quero me estender ao falar dela é que, pessoalmente, o ano de 2018 não foi um dos mais fáceis para mim. Manter o site na ativa foi algo que fiz muito esforço por uns oito meses, que muitas vezes aconteceu escrevendo e editando artigos pelo celular dentro de uma sala de espera de um hospital. Culminou na perda de um parente meu, que era um jovem leitor como muitos de vocês, e me levou até a me afastar da leitura por um tempo depois. Podem ter percebido que alguns dias as coisas funcionavam quase que no piloto automático por aqui e também graças a ajuda de um baita amigo, que se ofereceu para virar colega do site e está aí até hoje, o Marcus Pedro. Ainda assim, atualizar o site acabou sendo um conforto mesmo sendo tudo tão difícil.

Com o passar do tempo, as coisas estão se acomodando, a poeira está assentando e estamos tentando funcionar de novo da melhor maneira pra vocês. É verdade que o problema dos quadrinhos nacionais continuam e uma solução para ainda falar dos gibis de tal maneira que se mantivesse o interessante de vocês leitores foi voltar a falar sobre edições recentes que saem nos EUA toda quarta-feira.  Em termos de números de leitores do site, tem funcionado bem. Só que isso não significa que abandonamos de vez as resenhas nacionais. Iremos arriscar trazê-las de um novo jeito, e aproveitar a preferência agora da Panini em publicar tudo em especiais de arcos fechados ajuda bastante. A ideia não é resenhar tudo que sai, e nem falar daquilo que imediatamente saiu em banca. Vamos tentar resgatar algumas histórias antigas que deixamos passar na época. Será algo mais atemporal desta vez. E, claro, abrindo também para possíveis leitores afim de participar.

Amanhã, teremos uma nova resenha depois de tanto tempo. É por vocês!

E espero falar com vocês mais vezes por meio de mais textos do Editorial.

 Até lá.

Sérgio "Coveiro" Campos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Resenha 616: Homem-Aranha - No Aranhaverso


Homem-Aranha: No Aranhaverso estreia hoje nos EUA, mas já faz algumas semanas que vimos a animação na cabine de imprensa promovida pela Sony. Foi lá que acabei descobrindo que a estreia da Animação foi postergada no Brasil para 10 de Janeiro. Apesar dessa pequena decepção para os fãs, que é de caso pensado para justamente pegar a molecada de férias, podemos garantir que todo o resto que se pode falar sobre esse desenho merece só elogios e palmas. Não é a toa que Homem-Aranha: No Aranhaverso é de longe o mais bem avaliado filme que foi aos cinemas do Teioso. A animação é completamente inovadora, tem um roteiro de comédia bem atual e mais do que nunca captura a essência do que é o herói. Você sai do filme realmente acreditando que também pode ser um Homem-Aranha.

Levar aos cinemas a primeira animação de grande porte do Cabeça de Teia e já começar com uma história envolvendo não um, não dois, mas várias versões do personagem de realidade diferentes poderia a um primeiro julgamento nos fazer acreditar que o filme é um erro. Mas se considerarmos que o cerne aqui é levantar a bola para uma das bandeiras essenciais que o personagem vem tendo, foi a melhor sacada do filme. Lá pelo meio da história, o mais experiente dos Homens-Aranha presentes fala que "Qualquer um pode estar por trás da máscara". E sim, por mais que você julgue o jargão "Com Grandes Poderes, vem grandes responsabilidades" ser o mais importante, a essência do Homem-Aranha no princípio sempre foi que ATÉ VOCÊ pode ser um super-herói.



Stan Lee por mais de uma vez falou em entrevistas que afastou o Homem-Aranha do esteriótipo de herói com músculos e bonito para um nerd franzino para relacionar o herói com seu leitor. Essa foi sua grande preocupação, mostrar que atrás daquela máscara, não importava nossa aparência, nossos problemas pessoais e financeiros, tudo ficaria para trás quando o manto do super-herói recaísse sobre nós e o dia precisasse ser salvo. Brian Michael Bendis resgatou isso quando no universo ultimate matou o Peter Parker daquela realidade e deu ao jovem negro descendente de latinos Miles Morales o manto e herança do Homem-Aranha. E do Miles, podemos extrapolar para tantos outros personagens de tantas outras realidades diferentes que os quadrinhos e esse filme propõem. Seja qual for sua descendência, cor da pele, gênero, linha temporal ou até mesmo espécie (Valeu, Porco-Aranha). E nem todos ali precisam ser essencialmente iguais em termos de poderes. Citando mais uma vez o Peter Parker mais experiente do filme, "É o que te faz ser diferente que te faz ser um Homem-Aranha".

Certamente, sendo o personagem mais icônico da Marvel durante esses anos, com seis filmes solos de três atores diferentes, inúmeras animações e com a cara estampada em diversos bonecos e jogos eletrônicos, chega a ser desnecessário grandes apresentações do personagem pra o público. Tanto o Homem-Aranha como sua história base de origem é bem conhecida (mudando-se uma coisa ou outra dependendo da mídia). Assim, o primeiro Homem-Aranha a se apresentar ali, o Peter Parker dublado por Chris Pine, pode resumir quem ele é alguns minutos e cenas bem divertidas referenciando momentos impactantes dos quadrinhos e da trilogia de Sam Raimi. Nessa realidade, mais do que em qualquer outra abordagem levada aos cinemas, é de fato um herói amado e um sinal de esperança para o povo que o via salvá-los todos os dias de grandes ameaças. E era pra ser de fato assim, uma inspiração para todos, acima de tudo aquele que iria herdar seu legado.


Miles Morales (dublado por Shameik Moore) tem sua história de origem praticamente levada ao pé da letra assim como Bendis o criou, que por sinal é um dos produtores executivos da animação. Filho do policial Jefferson Davis (Brian Tyree Henry) e da latina Rio Morales (Luna Lauren Velez), o garoto está passando por uma grande mudança ao ir para uma escola de primeira linha no Brooklyn, mas em  troca disso vai ser obrigado a deixar sua vida de lado, antigos amigos e se submeter a uma grande pressão para se equiparar a ser um aluno exemplar ali naquele novo ambiente. Confuso, vivendo esse momento do início da puberdade e querendo se encontrar, acaba tendo no seu tio Aaron Davis (Mahershala Ali) um escape de toda a pressão. Seu tio, que em segredo é o vilão mascarado Gatuno, permite que Miles saia em segredo para grafitar paredes com sua arte sem seu pai descobrir e puxar sua orelha.

Tudo o que Miles Morales não precisava ali era ter um problema ainda maior ao ser arbitrariamente picado por uma Aranha modificada pela Alchemax e amanhecer no dia seguinte com superpoderes. E se os problemas na escola com essa nova descoberta já não eram pequenos, imagine ao presenciar o fim do Homem-Aranha daquela realidade e ouvir dele antes que morresse quase que uma convocação a "responsabilidade" que Miles deveria assumir agora que tem os poderes. Morales leva um tempo considerando isso, e nesse instantes do filme somos abordados em vários pontos diferentes com a morte daquele Homem-Aranha o que é de fato a essência do herói. Confesso que como fã, teve momentos que me emocionei bastante, coisa que até hoje os Live-Actions não conseguiram o feito.



Contudo, a chamada a responsabilidade ali não está só nas mãos do Miles. Toda a realidade está comprometida e em risco graças a experimentos realizados por um determinado Rei do Crime que faria de tudo pra ressuscitar sua antiga família. Seus experimentos estão custando a integridade do multiverso e como efeitos adversos iniciais trouxe até aquela terra cinco diferentes (e bota diferentes nisso) Homens de realidade diferentes ali. O primeiro apresentado é o Peter Parker que "não deu certo" (dublado por Jake Johnson). É o herói que praticamente estava prestes a desistir da carreira quando esse "chamado" o coloca de novo a ativa e sob um novo papel - o de ensinar o jovem Miles como é ser um Homem-Aranha. Longe de ser o professor ideal (ou mesmo o herói que queríamos), o personagem de Jake Johnson praticamente dá a lição ao reverso e até o final da história acaba é vendo em Miles a mesma esperança que ele como herói (e o Peter morto dessa realidade) deveria ter.

Talvez hoje em dia a versão de Mulher-Aranha mais conhecida do público, a Gwen Stacy (Hailee Steinfeld) também tem um papel importante no filme. Ela, por sinal, foi a primeira deslocada de sua dimensão a aparecer ali. Tem uma história de origem bem revelada pelos quadrinhos e pode muito bem fazer o papel do lugar dos olhos das meninas que assistem ao filme. Se não fosse Miles o protagonista, certamente ela roubaria a cena. Depois dela, mais três versões dão as caras. O Homem-Aranha Noir (Nicholas Cage) vem de um mundo sombrio, tão sombrio que ele é incapaz de entender as cores dessa realidade. Peni Parker (Kimiko Glenn) mostra que ser uma heróina aranha também não precisa seguir o mesmo conceito e ser mordida pelo bichinho para ter poderes. Não quando você pode construir seu próprio Mecha que tem como "cérebro" uma Aranha-robô de estimação. Por fim, o Porco-Aranha (John Mulaney), que não economiza em qualquer referência aos Looney Toones que eles possa fazer.


Ao juntar todos esses Homens-Aranha no mesmo espaço temos aí um outro grande mérito do filme. A beleza gráfica já brilhava aos olhos no começo quando o estilo da animação puxando mais o atual novo estilo 3D não impediu os diretores de pegar várias essências do estilo dos quadrinhos. Seja pela colorização que ora ou outra era levada mais pixelada de propósito a tela ou seja quando os balões e onomatopeias também davam as caras por aí, tudo cheira a novo no desenho e te deixa mais curioso, mais vivo querendo captar cada detalhe enquanto assiste. Contudo, quando os outros Homens-Aranhas aparecem, é como se você tivesse uma explosão de estilos na tela. A Peni Parker realmente tem todos os seus traços e movimentos voltados ao Anime. Porco Aranha reflete os exageros cartunescos de sua natureza. O Aranha Noir tem contornos grossos, traços retos e duros, como que tirado de um gibi da época. Gwen Stacy em dado momento puxa mais pro lado indie que já é comum pra quem lê suas histórias e até Miles Morales tem detalhes de arte de rua (como num grafite) em dados momentos. Se você é alguém realmente ligado aos desenhos quando toma os gibis nas mãos, vai ter um deleite.

Bom, no mais, como não poderia deixar de ser num filme animado assinado por Phil Lord e Chris Miller, Homem-Aranha: No Aranhaverso tem um humor muito bem apurado e que cria piadas em todos os níveis e para diferentes vínculos que as pessoas vão ter com o personagem (a cena pós-crédito que o diga). O legal é que mesmo alguém tão distante dos quadrinhos não vai ter problema nenhum em se acostumar e até mesmo amar essas novas versões do cinemas. Todos eles foram bem entrelaçados a história e como falei, se valem bem do fato do personagem ser icônico e que basta uma apresentação de 1 minuto pra você captar a idea por trás deles. O filme também tem sua lista de personagens coadjuvantes marcantes como a Tia May durona e até mesmo um insólito garotinho coreano colega de quarto do Miles que nunca apresenta seu nome. Os vilões dessa realidade também tem sua parcela de liberdade criativa, o que deixa o filme com um frescor de novidade ao se deparar com cada um deles.



Fora isso tudo, e para listar todas eu teria que reassistí-lo mais uma vez, há uma grande quantidade de easter eggs. Boa parte deles vem em forma de nomes de diferentes roteiristas e desenhistas que já passaram pelo personagem e estão lá numa agenda de telefone ou numa pixação no muro. Não podia deixar de citar a aparição especial" de Stan Lee, que emprestou a sua voz a ele mesmo no filme. Ele é um vendedor de uma loja e entrega uma fantasia comum de Aranha ao Miles, não sem antes deixar o pensamento que "sempre damos um jeito do uniforme caber na gente". No fim, é possível ver ainda um IN MEMORIAM dedicado a Lee e Ditko, criadores do personagem.

Coveiro