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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

O Velho Site 616: Completando 18 anos de existência


 

É isso! Chegamos a maioridade! O nosso site Universo Marvel 616 está completando 18 anos. E isso sem considerar nosso tempo como comunidade que originou tudo um ano antes. Agora podemos dizer literalmente que passou uma vida adulta aqui. E a sensação é até de que estamos bem, bem mais velhos! A piada evidente do título acima de "O Velho Site" foi até inevitável comparando com outros veículos destinado aos quadrinhos criados na mesma época que nem mais estão por aí.

A escolha do paralelo com o Velho Logan na imagem também não foi uma escolha aleatória. O personagem que vive quase que uma vida insólita nas Terras Devastadas de uma terra alternativa do Multiverso da Marvel pode servir de paralelo para como é o dia a dia dos bastidores do site hoje. Quem conhece a nossa história, sabe que o 616 nasceu de um esforço conjunto de quatro amigos oriundos da comunidade original do 616 do Orkut. Rapidamente, incluímos mais um membro e se tornaram 5 pessoas tocando o lugar por um bom tempo. No "boom" do sucesso dos quadrinhos nos anos 2010, já chegamos a ter mais de 12 pessoas no time incluindo entre editores e redatores pro site. Mas esses foram outros tempos e nos dias atuais só sobrou este que vos escreve.

Apesar de alguns "rostos conhecidos" estarem ainda no nosso podcast (se você também nos ouve), os mais atentos já devem ter percebido que é o "Velho Coveiro" quem está basicamente cuidando de todo o resto. E quando eu falo de tudo, não é apenas dos artigos do site, mas sim das edições do material e das redes sociais. E não, não é exatamente uma reclamação que abro aqui seguida de uma convocação por novos colaboradores. Algumas pessoas até entraram em contato comigo interessadas em participar e ajudar, mas educadamente tenho negado. Tirando alguns convidados com colunas próprias como o querido Alexandre Morgado, a ideia é não ter mais ninguém no dia a dia. A última vez que dividi os trabalhos aqui faz uns dois anos e quando ela se encerrou eu já estava considerando seguir solo até o fim do site e manter o 616 com uma só voz.

Mas como assim fim?

Bem, ninguém aqui deve ser tão inocente de achar que sozinho vou dar conta de levar o site por mais uma década. Na última vez que fiz um texto celebrando o aniversário do site já tinha deixado uma pista que a ideia de encerrar as atividades do 616 e somente algumas pessoas pescaram. Desde lá, eu já estava com planos para o dia exato em que isso for acontecer. E durante esse ano algumas questões médicas realmente apontaram que eu já fazia bem em pensar num plano de futura "aposentadoria".  

Mas calma, isso não é pra já. Tem mais alguns anos pela frente. A única coisa que não foi de fato definida é se eu vou parar de vez com a brincadeira ou se pretendo continuar com outra coisa em um formato que não seja um site de notícias diárias sobre quadrinhos. Mas isso é assunto para outro momento, em outro artigo e bem mais pra frente...

Até lá obrigado a todos que estão por aqui me acompanhando há muito, muito tempo... espero que continuem por aqui durante esse tempo a mais!

Coveiro

domingo, 1 de dezembro de 2024

A história da Marvel no Brasil em um “livraço” no Catarse. Não perca a oportunidade!

Quer saber muitas coisas que pouca gente sabe sobre as décadas de histórias da Marvel numa só obra feita pelo cara que mais sabe do assunto? Entrou no Catarse a nova obra de Alexandre Morgado: o “Almanaque das Curiosidades Marvel Brasil”. O livro será lançado pela Hyperion Comics de Levi Trindade.  Confira aqui um preview das páginas dessa edição imperdível:


No Almanaque das Curiosidades Marvel é apresentado a trajetória da Casa das Ideias por todas as décadas, destacando, além de diversas curiosidades, os gibis que fizeram e ainda fazem as nossas cabeças, juntamente com fatos importantes dos principais momentos da história do nosso país. 

“É um livro que incorpora a essência da Marvel no Brasil com a história do nosso país”, comenta Morgado. “Esse projeto teve início em 2021, após o lançamento do livro ‘A Trajetória da Casa das Ideias no Brasil’. Diferente do Trajetória, o Almanaque é altamente colorido em um acabamento extremamente luxuoso. Uma obra nunca produzida nesses moldes com quadrinhos no Brasil. Um projeto que irá agradar a todos, pelo seu conteúdo histórico e ilustrativo”, comenta o autor.


O Almanaque das Curiosidades Marvel Brasil terá capa dura, sobrecapa, 288 páginas coloridas em couché, fitilho e reserva de verniz brilho na capa e sobrecapa. Ele é fruto da pesquisa realizada ao longo de vários anos por Alexandre Morgado,auxiliado com maestria na diagramação e no projeto gráfico pelo designer VAM!, cujo talento pôde ser visto recentemente no livro Olhares Sobre os X-Men, de Guilherme Smee, que também contou com textos de Morgado.

Prepare-se para descobrir, rever ou apenas curtir TODA a história da publicação dos gibis da Marvel no Brasil, desde o lançamento do primeiro personagem, em 1940, passando por todas as editoras que detiveram os direitos ao longo das décadas, chegando até a Panini Brasil. O livro conta, ainda, com um prefácio escrito por Jotapê Martins, lendário editor e tradutor que foi um dos responsáveis pela consolidação das publicações da Marvel em nosso país. Um verdadeiro mergulho na história da produção editorial e gráfica brasileira. Um registro ímpar que merece estar na sua estante ou na sua pilha de leitura infinita!

O projeto ainda inclui um pôster exclusivo para a campanha com arte do brilhante artistas “Matias Streb”.


Para garantir o seu, basta entrar nesse link:

https://www.catarse.me/almanaque_das_curiosidades_marvel_brasil_3220?ref=ctrse_explore_pgsearch

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Refutando o livro “Invencível: A Ascensão e a Queda de Stan Lee”, de Abraham Riesman.

O nome “Stan Lee”, causa sensações distintas em algumas pessoas, principalmente em seus opositores. Desde que a Marvel foi criada, após um quase fechamento da editora no final dos anos 1950, tanto Stan Lee, quanto os outros “pais” do Universo Marvel, Jack Kirby e Steve Ditko, viraram análise de estudo por muitos pesquisadores. A criação da Marvel, com um exército de novos personagens, e com alguns da Era de Ouro, reacendeu o gênero no longínquo ano de 1961. Em cima da criação, o nome de Stan Lee é o mais aclamado e conhecido de fato. Seus dois principais artistas, Jack Kirby e Steve Ditko, sempre ficaram à sombra do “gênio” por traz do sucesso da editora. 

Stan Lee foi o último a falecer dos três. Jack Kirby, morto desde 1994, foi o primeiro deles. O Rei dos quadrinhos, que desenhou e criou personagens praticamente sua vida inteira, não pode aproveitar dos mesmos “louros” que Stan Lee aproveitou em vida. Após assinar alguns de seus melhores contratos com a Marvel, Stan Lee passou a ser o símbolo mor da editora, e como consequência, ganhou muito mais dinheiro que os dois juntos, passando a ser o único criador (erroneamente) da Marvel. Steve Ditko, que faleceu alguns meses antes de Stan, era recluso, misterioso e se negava a participar dessa euforia. De fato, Stan Lee foi quem se deu melhor. E seu grande erro foi ter perdido seus melhores artistas por orgulho. Ditko foi embora em 1966, depois de não se acertarem pelos rumos do Homem-Aranha, e Jack ficou magoado e com razão pelo jeito que a Marvel o tratou. Jack Kirby, infelizmente, foi humilhado na editora que ajudou a construir. Os motivos foram vários, e Stan Lee foi responsável por alguns deles, se bobear pela maioria. Mesmo com todos os seus erros, Stan não pode ser rebaixado como o cara que não fez nada. É impossível estar na posição que Stan Lee ocupava e dizer que ele não tem nada a ver com o que foi feito.



 Após sua morte, um movimento de “desmistificar” o mito Stan Lee, cresceu. Um deles é o livro do autor “Abraham Riesman” chamado “Invencível: A Ascensão e a Queda de Stan Lee”. Publicado no Brasil em 2021 pela “Globo Livros”, Riesman, cria um texto sólido, bem escrito, porém, muito tendencioso sobre Lee. Como na maioria das biografias, o autor começa desde os primórdio com seus antepassados; passando pela sua infância; chegando aos escritórios da editora que viria a se tornar a Marvel; a ascensão da editora; os desentendimentos com seus artistas; sua vida em Hollywood e por fim, seus últimos e terríveis dias de vida nas mãos de sua filha usurpadora e de outros “sanguessugas”. Da parte que me interessa de fato: a criação dos personagens e o trabalho colaborativo com seus artistas. Desde que Jack Kirby deixou a Marvel em 1978, o assunto “quem fez o que”, criou forma. Jack, sempre que podia, dizia que tudo era ideia dele, Stan Lee, às vezes citava seus artistas, outras vezes, não – e o “quem criou” virou debate de fofoca de programa de tevê vespertino. Jack em alguns casos, tinha razão em algumas observações. Em outras, carregava na hipérbole. Stan também exagerava, quando podia. Para exemplificar essa questão, o problema entre eles era um só: créditos. 

Voltando a polêmica biografia, quando Risman entra no cenário da criação, o autor não é parcial, e tende a ficar mais do lado dos desenhistas e em alguns momentos, passa a desmoralizar o personagem principal de seu livro. Até consigo compreender o autor, pois muito foi falado de Stan Lee como o Deus da Marvel em diversos outros livros, e essa foi a chance de Riesman fazer um trabalho novo, se distanciando dos demais biógrafos. Não entro no contexto da vida pessoal e dos negócios mal sucedidos que Stan teve ao longo da vida. Afinal, todos nós, inclusive o próprio autor, temos os nossos altos e baixos. E da vida.

Agora, sobre a criação dos personagens que compõem o Universo Marvel, Riesman, comete altos desatinos. Começando pelo Quarteto Fantástico, Riesman inicia com a célebre frase, “quem criou o The Fantastic Four 1 e, com isso, deu início à revolução Marvel? pg 117.

O autor aponta a questão dizendo que “fora as palavras frequentemente repetidas por Stan, não há prova alguma conhecida de que ele tenha criado a premissa”. E continua, “Não há pranchas de apresentação de projeto, documentos jurídicos contemporâneos, correspondências nem registro de diário. Nada”. Em seguida, Riesman fala sobre a “sinopse” da edição 1, datilografado por Stan Lee, dizendo que é um “documento curioso com uma história questionável”. pg 118.


PRIMEIRA REFUTAÇÃO: Por que Riesman não leva a sinopse de The Fantastic Four 1 em consideração? Esse documento já havia sido visto por Roy Thomas em 1966, antes de existir o “quem criou”. Quando The Fantastic Four chegou aos seus trinta anos de lançamento com a edição 358, em novembro de 1991, a sinopse da primeira história foi publicada nesta edição. O interessante nessa sinopse é que ela não é exatamente do jeito que foi desenhada. Acredito que essa sinopse é original feita sim na época, porém, feita após uma conversa entre ambos. Alguns detalhes que estão na sinopse original não foram usados no resultado final. Entre eles o drama dos personagens com a conquista de seus poderes. De acordo com esse documento, Susan, ficaria invisível permanentemente. Para ser vista, ela colocaria uma máscara. Só assim, para que as demais pessoas pudessem vê-la. Com o Tocha Humana, Johnny não ficaria em chamas por mais do que cinco minutos. Depois desse tempo, seu corpo iria se apagar. Com o Senhor Fantástico, o líder do grupo teria alguns efeitos colaterais ao se esticar. De acordo com os textos, Reed sentia muitas dores ao esticar o seu corpo, e esse seria um dos dramas a serem explorados. Com o Coisa, sua origem foi do jeito que foi apresentado na revista. Outro detalhe, era uma viagem ao planeta Marte. O fato é até questionado pelo próprio Stan sobre se deviam apenas explorar a corrida espacial ou se deveriam conquistar o planeta vermelho. Outro ponto que soa interessante é uma frase em que Stan Lee, ao falar da invisibilidade permanente da Garota Invisível, alerta Jack Kirby, dizendo: “Melhor falar comigo sobre isso Jack, talvez possamos mudar um pouco esse detalhe”. Minha observação aqui é a seguinte: Por que Stan Lee cita o nome de Jack, em específico nessa sinopse? Ficou claro pra mim que Stan havia conversado com Jack, antes de digitar esse documento – e ao alertá-lo sobre esse ponto é uma clara evidência de um dos detalhes conversados anteriormente. E o mais contundente: se Stan Lee fosse se dar ao trabalho de digitar algo trinta anos depois de publicado, por que faria um texto diferente do que foi apresentado na edição de estreia? 

Outro ponto em The Fantastic Four que Riesman ignora: a carta de Stan Lee a “Jerry Bails”. Na década de 1950, Jerry Bails, foi um dos precursores dos fanzines nos Estados Unidos, dando início com suas publicações sobre o tema em algumas publicações. Apaixonado por quadrinhos, Bails, publicou diversos fanzines, com matérias e novidades sobre os personagens da era de ouro e de prata. Pelo seu grande trabalho, Bails, estreitou relações com “Julius Schwartz”, editor da DC Comics. Após Bails mandar cartas e mais cartas para a DC, perguntando sobre os personagens, Julius, que passou a conhecer seu fanzine, mandava alguns dos roteiros das histórias para Bails publicar. Em uma época sem internet, e os quadrinhos não sendo a melhor coisa do mundo pelos olhos da sociedade, Bails ajudou a segmentar os quadrinhos naqueles anos. Com o sucesso de seu fanzine (visto com bons olhos pelas editoras), Bails criou uma relação com Stan Lee, pois, além de adulto, Bails era também um professor universitário credenciado. O que acabou agregando mais atenção e respeito aos editores Julie Schwartz e Stan Lee em relação ao fã médio e comum. Uma das cartas enviadas a Jerry Bails, assim que Fantastic Four 1 foi lançada, fornece alguns detalhes interessantes, com informações e suas intenções de direcionar os quadrinhos para um público mais velho


CARTA DE STAN LEE PARA JERRY BAILS


Prezado Jerry,

Me diverti lendo a ALTER-EGO e a COMIC COLLECTOR, e gostei bastante da pequena crítica ao QUARTETO FANTÁSTICO, escrita por Roy Thomas.

Apenas para corrigir algumas imprecisões: Eu não sou um “antigo” editor da TIMELY. Eu tenho sido editor e diretor de arte dessa incrível instituição nos últimos 21 anos, e espero continuar sendo para sempre. Além disso, duvido que o Sr. Thomas tenha sido o único a adquirir uma cópia (embora ele tenha dito isso em tom de humor, obviamente) porque, se julgarmos pelos primeiros recordes de vendas, acredito que tenhamos em mãos um título vitorioso.

Para o futuro do Q.F., teremos:

        

           UNIFORMES

       

           UM TRATAMENTO DIFERENTE (em termos de arte) para o Tocha

       

            NOVOS PERSONAGENS NOS PRÓXIMOS MESES


(Não fique muito surpreso ao encontrar o Príncipe Submarino novamente, ou o Capitão América! Quem sabe??)


        E MAIS UMAS SURPRESINHAS... Então, continue com a gente, amigo!

Estou interessado também na sua opinião sobre outra revista, que estará à venda em breve... AMAZING ADULT FANTASY. Achamos que vai ser um estouro.

A respeito dos vários comentários sobre o Q.F., nós evitamos de propósito que a garota invisível (opa, desculpa!), Garota Invisível atravessasse paredes, para justamente não dar MUITOS superpoderes aos nossos personagens, já que achamos que esse tipo de coisa tem muito apelo junto a leitores MAIS JOVENS; e estamos tentando (talvez em vão?) atingir um público um pouco mais velho e sofisticado.

Por enquanto é só... Continuem com o bom trabalho.

Atenciosamente,


Carta de Stan Lee de 29 de agosto ao fã Jerry Bails (carimbada em 1º de setembro de 1961)



A carta enviada por Stan Lee, com menos de um mês do lançamento de Fantastic Four 1 esclarece que sim, Stan CONVERSAVA SOBRE ENREDO com Jack Kirby. Assim como Jack, que CONVERSAVA SOBRE ENREDO com Stan Lee. Reparem que na carta, Stan cita os uniformes (que iriam aparecer somente na edição 3), o retorno de Namor (na edição 4) e o retorno do Capitão América (somente em 1964). Ou seja, as primeiras edições e alguns pontos que ainda viriam a acontecer, já estavam sendo elaboradas. Nesse início Stan e Jack trabalharam em comunhão e com a criação do lançamento de Fantastic Four, foi ativada a chave da inventividade na cabeça de ambos, fazendo com que a criatividade aflorasse.

Ainda sobre o Quarteto, Risman escreve a seguinte frase: “Há um boato de que o documento inteiro foi criado após a chegada da revista às bancas” pg 118...poxa, há um boato? sério? por parte de quem? O autor refuta o documento, mas enfatiza um boato imaginário. Riesman também leva em consideração o depoimento de um dos assistentes de Jack Kirby, que nunca trabalhou na Marvel. Steve Sherman conta que acredita que a sinopse é falsa, pois foi o que Jack disse a ele (???). Riesman leva em consideração o lado negativo do depoimento de Jack para Sherman ao mesmo tempo que refuta um documento que existe. O autor conclui que “É quase certo que não exista um item definitivo que resolva a questão”pg 119. Certamente, Risman não conhece, ou ignora o historiador “Tom Brevoort” 

Tom Brevoort é editor e pesquisador de quadrinhos nos Estados Unidos. Tom, trabalha na Marvel desde 1989, tendo iniciado sua vida como estagiário – chegando até o cargo de vice-presidente sênior de publicação, trabalhando com diversos títulos na editora. Tom Brevoort, mantém o site,“The Tom Brevoort Experience” (tombrevoort.com), dedicado à pesquisa e curiosidades dos quadrinhos. Em uma de suas pesquisas, Tom fez uma análise das três primeiras edições de The Fantastic Four. E graças a ajuda de diversos outros pesquisadores, Tom conseguiu as páginas originais de “The Fantastic Four 3”, de março de 1962. O artigo intitulado “Lee & Kirby: Fantastic Four 3”, apresenta além das páginas originais, diversas anotações e rascunhos de Stan Lee, que através dessas páginas, conduzia a história desenhada por Jack Kirby. Muitas das páginas mostradas por Tom, apresentam alterações e revisões de Stan Lee, com o que Jack Kirby estava trabalhando. O artigo é excelente. Através dele é possível entender como o processo de criação entre ambos funcionava no começo da era Marvel. Depois de apresentar muitas das falas de Stan sobre a criação (que verdade seja dita, muitas das vezes as versões mudam conforme os anos), Risman diz que “se serve de consolo, Kirby também não ofereceu uma história simplificada a respeito de ter criado os personagens”. Ou seja, o autor roda, roda e não sai do lugar. The Fantastic Four foi criado por Stan Lee e Jack Kirby. Simples assim. Fonte: https://tombrevoort.com/2019/01/27/lee-kirby-fantastic-four-1-part-one/

Em seguida, Riesman fala sobre o Incrível Hulk. O autor, comenta sobre um personagem chamado Hulk, publicado meses antes do Incrível Hulk que conhecemos. Esse personagem anterior, que hoje é chamado de “Xemnu”, foi uma história desenhada por Jack, com roteiro de Larry Lieber, que escrevia em cima de um plot de Stan Lee. pg 128

Pela sua linha de pensamento, Riesman tenta desmoralizar o fato de Stan Lee usar um nome que havia sido publicado há pouco.


SEGUNDA REFUTAÇÃO: O autor, mais uma vez, não sabe que antes mesmo desses dois “Hulks”, um outro, foi publicado como um robô em “Strange Tales 75” de 1960, quase dois anos antes. E nessa primeiríssima aparição do nome Hulk em um gibi da editora, o desenhista da história foi Don Heck com Stan Lee e Larry Lieber, fazendo os textos. Stan Lee ainda usaria o nome Hulk, em uma história de ficção-científica com desenhos de Steve Ditko. Ou seja, o nome já era bem rodado, antes de Jack Kirby desenhar o Hulk que conhecemos.


 A primeira vez em que o nome “Hulk” foi usado: Strange Tales 75 de 1960.

Pulamos para o Thor, o Deus do Trovão. O autor aponta que “”Stan não havia demonstrado nenhum interesse em mitos nórdico, nem mesmo nos próprios relatos de sua juventude. pg 131


TERCEIRA REFUTAÇÃO: esse argumento de Risman é fraco, pois o fato de não ter feito nada antes, garante, segundo o seu raciocínio que Stan Lee não poderia ter feito ou pensado em um Thor na era Marvel. Mas pela sua pesquisa preguiçosa, Stan Lee, ao lado de Werner Roth, apresentou um Thor e um Loki, 11 anos antes. Durante a fase Atlas, foi publicada uma história intitulada “Trapped in the Land of Terror" na edição de “Venus 12” de 1951. A história escrita por Stan Lee e desenhada por Werner Roth, mostra uma versão do Deus do Trovão e de seu irmão, Loki na história da Deusa do amor, Venus. Por um tempo, esse Thor produzido por Stan e Roth era considerado pela própria Marvel como sua primeira aparição em suas revistas, constando até no “Official Handbook of the Marvel Universe” e nas primeiras versões do site Marvel.com. E ainda, a lenda de Thor, já havia sido publicado por outras editoras, como a Archie Comic em 1939 e a Fox Feature Syndicate em 1940. Jack Kirby também fez um Thor na DC, em duas histórias depois da Archie e a Fox. Até Steve Ditko, pela Charlton, fez sua versão. Ou seja, Riesman ignora o trabalho colaborativo, com um “Stan não havia demonstrado interesse em sua juventude”, sem perceber que existiam muitas versões já publicadas, inclusive por ele em 1951.

 


O primeiro Thor da Marvel, por Stan Lee e Werner Roth em Venus 12 de 1951

Chega a vez do Homem-Aranha. A origem da criação é bem complexa, mas tentarei resumir. Joe Simon e Jack Kirby, tinham um nome…isso mesmo “UM NOME”, escrito em um papel, chamado “Spiderman” sem hífen. Esse nome era em cima de um roteiro de um personagem chamado “Silver Spider”, desenvolvido por C.C Beck e Jack Oleck, em 1953 JAMAIS publicado. Eis que em 1958, Simon e Kirby aproveitam essa sinopse do SIlver Spider e publicam o “The Fly” pela Archie, que dura pouco pelas mãos dos dois. Saltamos para 1962, Stan Lee e Jack Kirby conversam sobre “Spiderman”. Fica impossível dizer quem deu a ideia do nome. De qualquer forma, Jack desenha cinco páginas, Stan Lee entrega a Steve Ditko para fazer a arte final. Ditko diz a Stan que o personagem se parece muito com o The Fly, publicado há pouco tempo. Stan deixa as páginas de lado, escreve uma nova sinopse de uma página e meia e entrega para Steve Ditko, que desenvolve o uniforme e a mitologia de Peter Parker. Realmente, Stan Lee já contou diversas histórias sobre essa inspiração. Ora era uma mosca na parede, ora era o “The Spider”, um personagens dos pulps, que segundo Stan, serviu de inspiração. O Homem-Aranha, dessa vez com hífen, é criação de Stan Lee e Steve Ditko. Jack Kirby, pode ter apresentado o nome, que estava guardado desde os anos 1950, mas o Homem-Aranha que conhecemos, não tinha nada a ver com Silver Spider e muito menos com The Fly. E qual é a polêmica, aqui? Nos anos 1980, Jack travou uma batalha de anos contra a Marvel pela devolução das artes originais. E em cada entrevista, Jack dizia que o Homem-Aranha era criação dele. No livro, Riesman diz: “No entanto, ele (Jack) jurou de pé junto que o processo criativo começou com ele” pg 132.  


QUARTA REFUTAÇÃO: Acho incrível, o lado super tendencioso de Riesman, pois o autor acredita em Jack, apenas pelos dois pés, um próximo ao outro. Pela unilateralidade, Risman, não se esforça mais uma vez na pesquisa. Por exemplo, em 1971, em uma entrevista para a rádio WNUR-FM em 1971, Jack Kirby disse isso:

Entrevistador: Outro artista sobre o qual eu queria te perguntar é Steve Ditko. Você já teve a chance de trabalhar com ele?

Jack Kirby: “Eu nunca trabalhei com Steve Ditko; ele é um sujeito meio tímido e eu o via raramente. Ele é muito simpático e muito inteligente. Eu sou um verdadeiro admirador do trabalho dele. Ele é um homem muito criativo. Na verdade, Steve criou o Homem-Aranha, e a coisa pegou por causa do que ele fez”.  Fonte:https://forum.cbcscomics.com/topic/15161/an-interview-with-jack-kirby-from-1971/

Logo depois, Riesman ao falar pelo lado de Steve Ditko, contesta o fato do desenhista receber as sinopses, e de nunca ter esclarecido quem foi que a escreveu. pg 134.

Aqui eu vejo uma imensa má vontade do autor. Steve, realmente não era de dar entrevista, mas publicava as respostas por meio de desenhos e ensaios. Um deles é esse aqui:

“Criação do Homem-Aranha de Stan Lee: Uma sinopse de 1 ou 2 páginas para o artista que deve desenhar de 21 a 24 páginas de painéis de história/arte. 

(O diálogo deve então ser trabalhando e adicionado a partir do script do painel do artista)”


Bom, aqui Steve explica (e desenha) de forma clara que Stan Lee fez 1 ou 2 páginas, indo na contramão do que o autor alega. E também tem essa fala em outra ocasião do próprio Steve Ditko:

“Stan ligou para Jack sobre The Fly. Não sei o que foi dito naquela ligação. Dias depois, Stan me disse que faríamos o Homem-Aranha. Eu estaria desenhando os detalhes do painel da história da sinopse de Stan”  Fonte:https://comicbookhistorians.com/the-ditko-version-exploring-steve-ditkos-recollections-of-m

REFUTAÇÃO FINAL: Abraham Riesman explora de forma contundente os assuntos controversos, bem diferente das outras biografias publicadas sobre Stan. O autor passa pelos primórdios de sua família e infância, até assumir o poder na Marvel, indo até os problemas com suas empresas e o seu final melancólico pelas mãos de sua filha e seus cúmplices. Riesman desnuda o mito em seu livro. E todos os detalhes fora da Marvel são cheios de controvérsias, em muitos dos casos, o autor apresenta Stan Lee como um cara que teve uma vida falsa e que não fez e criou nada em seus mais de 90 anos de vida.

Sobre o assunto que importa a mim: a criação do Universo Marvel, Riesman, não apresenta nada de novo, apenas cria polêmica onde não tem, com as criações dos personagens com uma pesquisa preguiçosa nesse ponto. Riesman tenta rebaixar o nome de Stan na maior parte do tempo, enquanto coloca os nomes de Jack Kirby e Steve Ditko mais em evidências pela ótica da criação. “Na ausência de dados conclusivos, a história foi escrita pelo vencedor”, conclui o autor. pg 125

Riesman deixa de lado, em muitos dos casos, uma análise mais apurada e parcial com os artistas que lá estavam. Pouquíssimas palavras de Roy Thomas e Jim Shooter, por exemplo, são trazidas aos contextos. E as que são apresentadas, são focadas no lado negativo. Pesquisadores como Tom Brevoort, John Morrow e Jerry Bails não foram levados em consideração. Don Heck, John Romita, Gil Kane e Gene Colan, artistas que gostavam de trabalhar com Stan, não foram lembrados. Por outro lado, Wally Wood, um dos que tiveram problemas, está no livro com viés negativo contra Stan Lee. Riesman acabou sendo muito crédulo com relação ao que Kirby disse com o que fez e como o fez. Tirando as partes do livro com ideias tendenciosas com a questão do “quem criou”, a pesquisa é excelente e o livro é muito bem escrito. A parte final (com trechos bem pesados e tristes), apresenta em detalhes, todo o drama que Stan Lee sofreu nas mãos de sua filha e da quadrilha que o cercou em seus últimos dias de vida.

O sucesso possui vários pais, já o fracasso é um filho bastardo. O homem precede o mito e o sucesso não é livre de conflito. E apesar de Abraham Riesman, Stan Lee continua sendo um dos criadores do Universo Marvel. 

“Excelsior”

 Alexandre Morgado.


Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2024, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics.


domingo, 22 de setembro de 2024

Grandes Histórias Marvel no Brasil: Jovens Vingadores, Wiccano e a Censura na Bienal do Rio

Uma das coisas que mais me atrai no Universo Marvel é a construção e a evolução de um arco e com os personagens através dos anos. Wanda, a Feiticeira Escarlate, foi uma das personagens que passou por muitas fases e situações distintas. Desde que foi criada por Stan Lee e Jack Kirby como uma das vilãs que compunham a Irmandade dos Mutantes nas histórias dos X-Men, Wanda passou para o lado dos heróis, atuando em conjunto com os Vingadores – até se envolver com seu lado místico, sendo treinada pela enigmática “Agatha Harkness”. Antes de assumir a série dos Vingadores da Costa Oeste, John Byrne havia feito anteriormente, algumas histórias dos Vingadores, explorando ainda mais o passado de Wanda, condicionando a personagem em um mar de mistérios. Sua ligação com o Magneto, que até então era seu pai, e com seu passado conectado com a “Trânsia”, seu país de origem, colocou a Feiticeira Escarlate ligadas ao demônio Chthon e com o livro Darkhold. Nesse período, Wanda se envolveu em um romance com o Visão, tornando-se o casal mais díspar da Marvel. Como consequência, Wanda fica grávida de gêmeos, batizados de “Thomas e William”.



Por fim, chegamos em Vingadores da Costa Oeste. A partir da edição de The Avengers West Coast 42, John Byrne assumiu como roteirista e desenhista, e causou uma evolução na equipe. Durante a série, é explicado que seus filhos não são crianças normais. Como o Visão é um andróide, Wanda desejou ter filhos, e parte de seus poderes mentais e místicos acabou fazendo com que ficasse grávida, conjurando a existência, dando à luz a duas crianças que não eram reais, de fato. Mas o que parecia uma bênção na verdade era uma maldição. Os filhos gerados pela magia faziam parte de fragmentos da alma de Mephisto – que era parte de um plano do senhor do mal, para juntar os pedaços de sua alma. Os Vingadores conseguiram impedir o êxito de Mephisto, e para poupar Wanda desse terrível trauma, Agatha Harkness eliminou essas lembranças de sua mente. Wanda passaria a seguir sua vida sem nenhuma lembrança de seus filhos. Em um momento de descuido, Janet Pym, a Vespa, acaba “soltando” sem querer o assunto - uma informação mais que suficiente para resgatar suas antigas recordações. As consequências dessas ações resultaram na história “A Queda”, apresentando Wanda perdendo seu controle, desencadeando uma verdadeira matança com os maiores heróis da terra.



Como parte da reformulação da Marvel nos anos 2000, conduzida pelo editor-chefe, Joe Quesada, a Marvel trouxe muitas novas séries e novos personagens, entre eles o grupo “Jovens Vingadores”. Na época, o co-criador Allan Heinberg revelou:

"O editor-chefe da Marvel na época, Joe Quesada, me falou da ideia. Ele e o editor Tom Brevoort estavam relançando os Vingadores com (o escritor) Brian Michael Bendis no comando e me perguntaram o que eu achava de introduzir uma equipe de Vingadores adolescentes. Fiquei honrado pelo convite, mas, na época, admiti a eles que Jovens Vingadores provavelmente não seria um título que eu compraria. E, na minha opinião, mais ninguém. Mas, eles foram bem legais ao pedir que eu pensasse a respeito. Disseram que eu poderia usar personagens Marvel que já existiam ou criar novos. Então, me deram o telefone da casa do Brian e falaram pra eu ligar e conversar com ele. Como fã de Bendis, era uma oferta que eu não podia recusar". 

Heinberg continuou: "A última coisa que eu queria era criar um bando de novos parceiros mirins. Pra mim, o único jeito de fazer com que os leitores se importassem com eles seria torná-los parte integral da história e do legado dos Vingadores... e, de algum modo, subverter as suposições que os leitores tivessem quando escutassem que estávamos lançando uma equipe chamada Jovens Vingadores". 

Juntamente com o desenhista Jim Cheung, Heinberg criaram em 2005, alguns personagens baseados nas estruturas dos Vingadores: Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk Gigante e Gavião Arqueiro, ganharam suas versões mais jovens. Foi aí que, ao montar a equipe, Heiberg decidiu trazer os filhos de Wanda, agora adultos e com poderes. Chamados de “Wiccano e Célere”, os dois são de certo modo os filhos de Wanda que só existiam de forma psíquica. 


Com os eventos em Vingadores: A Queda e Dinastia M, Wanda tentou de forma inconsciente trazer seus filhos de volta. As almas dos dois acabam “reencarnando” nos corpos de duas crianças chamadas, William Kaplan e Thomas Shepherd. Ou seja, os espíritos dos antigos filhos, agora estão em outros corpos.

Mesmo tendo pais biológicos diferentes, os dois meninos são filhos de Wanda de forma espiritual. Na série Allan Heinberg colocou William, agora conhecido como “Wiccano” em um relacionamento homoafetivo com “Teddy Rufus”, o Hulkling, um híbrido das raças Kree e Skrull. Os Jovens Vingadores acabou fazendo muito sucesso, o que levou Allan Heinberg e o desenhista Jim Cheung a explorar a conexão com a Feiticeira Escarlate na saga “A Cruzada das Crianças”. Allan Heinberg e Jim Cheung, mal poderiam imaginar que a história da busca pela Feiticeira Escarlate, apresentada em A Cruzada das Crianças, iria ganhar um destaque negativo em terras brasileiras em 2019.

A Bienal do Livro, como já é de tradição, é o maior evento literário do país. Em um momento de crise das grandes Megastores, a Bienal serve para estimular a leitura, conhecer autores, adquirir os lançamentos e aproveitar os livros já lançados. Uma festa cultural com 10 dias de duração com o intuito de fazer da cultura literária um prazer para todos. Realizada desde 1983, a Bienal faz parte da vida dos brasileiros, mobilizando todo o país durante o seu evento. A 19ª edição da Bienal aconteceu em setembro de 2019. O que era para ser mais um evento cultural e artístico, acabaria tendo um momento triste em sua história, ganhando notoriedade por praticamente todos os portais, revistas e jornais do país (e até do mundo). 

Tudo começou na sessão ordinária ocorrida no dia 04 de setembro na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Na ocasião, o vereador Alexandre Isquierdo do partido DEM (Democratas), repudiou a edição número 66 da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel da Salvat, Vingadores - A Cruzada das Crianças, que estava sendo vendida na Bienal, em que são apresentados os personagens Hulkling e Wiccano em um beijo homossexual. Isso aconteceu após notícias em grupos do Whatsapp compartilharem a tal cena do beijo. A notícia viralizou até chamar a atenção do vereador acima citado. 


Na Sessão, Alexandre Isquierdo disse o seguinte: “Absurdo um livro que está sendo comercializado na Bienal do Livro: Vingadores – A Cruzada das Crianças, no qual o autor, que é assumidamente gay, coloca dois super-heróis em um relacionamento homossexual” – apontou. 

Após o discurso do vereador, foi a vez do prefeito da época do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, também do DEM, em sua conta do Twitter, criticar a Bienal por estar vendendo a revista dos Vingadores. Em sua conta, publicada no dia 06 de setembro, o prefeito disse o seguinte: “A prefeitura do Rio de Janeiro determinou que os organizadores da Bienal recolhessem o livro que traz conteúdo sexual para menores. Livros assim precisam estar embalados em plástico preto, lacrado e do lado de fora, avisando o conteúdo”. O prefeito alegava ainda que está protegendo as crianças da cidade do Rio.



Em nota, a Bienal afirmou que não iria retirar os livros e que dá voz a todos os públicos, sem distinção, com uma democracia deve ser. "Este é um festival plural, onde todos são bem-vindos e estão representados. Inclusive, no próximo fim de semana, a Bienal do Livro terá três painéis para debater a literatura Trans e LGBTQA+. A direção do festival entende que, caso um visitante adquira uma obra que não o agrada, ele tem todo o direito de solicitar a troca do produto, como prevê o Código de Defesa do Consumidor."

 A história escrita por Allan Heinberg e Jim Cheung, em que é abordada a equipe dos Jovens Vingadores, apresentando os personagens Wiccano e Hulkling, na trama namorados, já havia sido publicado no Brasil pela Panini em duas edições especiais, sete anos antes do evento da Bienal em 2012. Na ocasião, a história não tinha virado notícia pelo beijo entre os personagens e foi publicada normalmente pela Panini, sem saco preto ou qualquer tipo de tarja. Sendo inclusive vendida em bancas de jornais por todo o país. O que causa estranhamento é o desconhecimento do então prefeito sobre o conteúdo dos quadrinhos nos dias atuais.


 Em abril de 2013, por exemplo, a Panini publicou na capa de X-Men Extra nº 136, a história extraída de Astonishing X-Men º 51, com o casamento homoafetivo entre Estrela Polar e Kyle Jacoby. Ou seja, a prefeitura do Rio estava muito desinformada do que é publicado durante a última década nas HQs no Brasil. No dia seguinte, o prefeito Crivella disse que iria mandar recolher todos os exemplares de Vingadores, a Cruzada das Crianças. Mas antes mesmo de tal fato vir a acontecer, todos os exemplares se esgotaram, em pouco mais de meia hora do evento. À tarde, alguns fiscais chegam para recolher o livro e fiscalizar o conteúdo da Bienal, em um ato explícito de censura. Por sua vez, não encontraram nada que estivesse em desacordo com a legislação.


A Bienal não perdeu tempo, e recorreu à Justiça para garantir o funcionamento do evento. Em seguida, a OAB diz que a prefeitura não tem poder para recolher nenhum tipo de livro. Em sua defesa, a prefeitura disse que estava usando o ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) para com o livro dos Vingadores. De acordo com o artigo 78 do ECA, está determinado que "revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas com embalagem lacrada e com a advertência de seu conteúdo". E no artigo 81, o texto vem com os dizeres: "é proibida a venda à criança ou adolescente de revistas e publicações a que alude o artigo 78”, ou seja, o texto cita sobre obras pornográficas, o que não é o caso dessa revista em particular.

A notícia foi comentada pelo mundo, e até o desenhista da história, Jim Cheung em seu Instagram, comentou o fato da censura da prefeitura do Rio: "Não sei o que levou o prefeito a procurar um trabalho que tem quase uma década e que já estava à venda há muitos anos (…) só demonstra o quanto ele parece estar desconectado da realidade".

A atitude da prefeitura do Rio apenas ajudou a aumentar as vendas da revista e a procura da mesma pelos sites de vendas. No mesmo dia em que os fiscais estiveram na Bienal, os vereadores do PSOL, Renato Cinco e Tarcísio Motta, visitaram a sede do Ministério Público do Rio de Janeiro, onde deram entrada em uma representação contra o prefeito Crivella, para que seja investigado por improbidade administrativa, censura prévia, violação da liberdade de expressão e do princípio de não discriminação por causa da ordem para apreender a revista dos Vingadores. 



Após a representação, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu um inquérito civil para investigar a censura na Bienal. No dia 20 de setembro, o MP expediu, por meio da 8ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva da Cidadania da Capital, uma recomendação para que Crivella não volte a adotar medidas administrativas que restrinjam a livre circulação de revistas, livros e periódicos com conteúdo LGBT. No documento, o promotor Felipe Ribeiro ressalta que a lacração de embalagens e a inserção de advertências quanto à natureza do material só devem ser adotadas no caso de conteúdo pornográfico. 

“A expressão da sexualidade de cada indivíduo (...) não deve servir como parâmetro para distinguir juridicamente pessoas igualmente livres, sob pena de se admitir a criação de seres humanos de 1ª e 2ª categoria —enquanto os primeiros estariam autorizados pelo Direito a expressar publicamente sua sexualidade, os demais estariam sujeitos a 'lacrações' e 'advertências' estatais", diz o texto.



 Sem dúvida, uma vitória e tanto para que a liberdade de expressão continue sendo respeitada em nosso país. A intenção do prefeito teve efeito contrário ao seu desejo de censura. O assunto virou até capa do mesmo mês da revista política “Veja” da Editora Abril, e de diversos jornais, focando na cena do beijo entre os heróis dos Jovens Vingadores com uma tarja vermelha exaltando a palavra censura. A atitude do prefeito fez com que as vendas na Bienal triplicassem, causando efeito reverso ao seu desejo. No final das contas, o bom senso prevaleceu.


Alexandre Morgado.

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2024, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics.

Nota do editor: Veja aqui como se posicionou o 616 cinco anos atrás quando aconteceu os fatos relatados na matéria!

domingo, 1 de setembro de 2024

Grandes Histórias Marvel no Brasil: Os 50 anos do Punho de Ferro

Iron Fist, o Punho de Ferro está completando 50 anos de criação. Seu surgimento aconteceu em meio a onda dos filmes e séries de TV de Kung-Fu, que estavam se popularizando. Um ano antes do Punho de Ferro, a Marvel havia lançado “Shang-Chi, o Mestre do Kung-Fu”, e a partir desse lançamento, outros personagens do gênero chegavam. Roy Thomas e Gil Kane, combinaram a essência das artes marciais com os super-heróis, criando o Punho de Ferro. Após assistir a um dos filmes daquela época, Roy Thomas conta que em uma cena, mostrava uma cerimônia em que o personagem principal enfia os punhos em carvões em brasa, para deixá-los mais firmes para as lutas. “Eu gostei do nome Punho de Ferro”, conta Roy Thomas. “Naquela época, éramos muito mais sensíveis quanto a personagens com nomes parecidos; tínhamos o Homem de Ferro, e eu não sei se deveríamos ter um Punho de Ferro, ou se Stan Lee aprovaria, mas eu simplesmente gostei da ideia”. Roy Thomas continua: “Mencionei para Stan. Ele disse: “Eu realmente gosto como nome para um personagem de Kung-Fu”. Depois de dar os primeiros passos, Roy Thomas convocou Gil Kane, e ambos deram vida ao Punho de Ferro.

Iron Fist apresenta a história do jovem “Daniel Rand”, filho do industrial Wendell Rand, que a todo custo sonhava em encontrar a lendária cidade de “Kun-Lun”, um reino que de dez em dez anos surge nas montanhas do Himalaia, no Tibete. Cidade comandada por Yu Ti, soberano de Kun-Lun. Daniel, com nove anos, parte em busca da cidade, junto com seu pai, Wendell, sua mãe, Heather, e com um sócio de seu pai, chamado Harold Meachum. Durante a viagem, Wendell sofreu um acidente, juntamente com seu filho e sua esposa. Os três ficam pendurados em uma parte da montanha, à beira do precipício. Porém, Harold Meachum, que já planejava se livrar de seu sócio, acaba por não ajudá-lo e então pisa nas mãos de Wendell, até ele despencar pelas montanhas geladas do Himalaia. Meachum teve a oportunidade que queria, pois tinha como intuito assumir toda a indústria, no lugar de Wendell. Harold Meachum ofereceu ajuda ao jovem Daniel e à sua mãe, mas ela recusou ser ajudada pelo assassino de seu marido. Meachum parte e deixa mãe e filho para trás. Porém, os dois conseguem se salvar, e após saírem da montanha, sua mãe Heather avista uma pequena ponte, mas nesse exato momento, ela percebe que uma matilha de lobos estava em seu encalço. Para salvar seu filho, ela pede para Daniel correr até a ponte, e se atira para os lobos, salvando seu filho da morte certa. A ponte era simplesmente a entrada para o reino de Kun-Lun.



 Assim, Daniel Rand chega à lendária cidade onde é levado até Yu Ti, também chamado de A Suprema Personalidade de Jade e governante do reino. A partir dali, Daniel Rand seria treinado por Li Kung, um grande mestre das artes marciais. Após 10 anos treinando no reino de Kun-Lun, Daniel tem a oportunidade de ganhar o poder do Punho de Ferro, ao combater a serpente gigante chamada Shu Lao. Após vencer o grande réptil, Daniel abraça a serpente em seu corpo, para receber a marca do dragão e depois mergulha seus punhos no corpo da serpente, adquirindo, assim, o poder do Punho de Ferro. Com a conquista dos novos poderes, Daniel parte de Kun-Lun, voltando à América, em busca do assassino de seu pai. Suas primeiras histórias foram publicadas em “Marvel Premiere” das edições 15 a 25. Durante essas edições, além dos criadores, o Punho de Ferro passou pelas mãos de Len Wein, Doug Moench, Larry Hama e Tony Isabella. Logo depois, Chris Claremont, passou a ser o escritor de suas histórias com um jovem John Byrne fazendo a arte. O sucesso com o personagem foi o suficiente para ter uma publicação própria. “Iron Fist 1”, chegava em novembro de 1975, seguindo as histórias em Marvel Premiere. A nova revista durou 15 edições. Depois disso, o personagem foi publicado em “Marvel Team-Up” 63 e 64 e na revista “Power Man & Iron Fist” 48 a 50, todas essas histórias assinadas por Chris Claremont e John Byrne. 


No Brasil, o personagem chegou pela Bloch em 1975. Entretanto, como o Brasil não segue à risca a ordem das publicações originais, o personagem apareceu pela primeira vez na revista “Mestre do Kung-Fu 9”, em um conto de duas páginas apresentando técnicas de lutas, originalmente publicada em ‘Giant-Size Master of Kung Fu 1”. Suas primeiras histórias chegaram em sua própria revista, chamada “Punhos de Aço” em maio de 1977. A Bloch, pelo pouco conhecimento com o Universo Marvel, acabou iniciando com as histórias do personagem a partir de Iron Fist 1, ou seja, as dez primeiras publicadas em Marvel Premiere, permaneceram inéditas até a década seguinte, quando a Editora Abril assumiu o personagem.

A Bloch ficou mais conhecida à frente da Marvel pelas mudanças nas cores extravagantes dos personagens. Mas no caso da revista Punhos de Aço, a mudança na cor do uniforme, e a razão para a tradução do nome para Punhos de Aço, ao invés de Punho de Ferro, foram por puro receio ao período em que vivíamos naquele momento. A Bloch, como todo o país, estava vivendo em pleno regime da ditadura militar, no período do governo do presidente Ernesto Geisel e a empresa ficou com medo de publicar um personagem verde-amarelo com o nome de Punho de Ferro. Um personagem com esse nome, com as cores da bandeira, podia não pegar bem naquele momento. Alguém poderia acreditar que o personagem poderia ser um “brasileiro contra o sistema” e com certa razão, alteraram as cores do uniforme e o chamaram de Punhos de Aço. A Bloch achou melhor alterar as cores e não traduzir ao pé da letra o nome do personagem, principalmente pelo fato do presidente anterior a Ernesto Geisel, Emílio Garrastazu Médici, ter a fama de governar o país com “mãos de ferro”. Assim, a Bloch evitaria qualquer tipo de problema que pudesse surgir. A Bloch publicou somente cinco edições de Punhos de Aço (Iron Fist 1 a 12)  entre maio de 1977 a janeiro de 1978.

 Já na Abril, o personagem seria chamado corretamente de Punho de Ferro, sendo um dos personagens publicados na revista Heróis da TV. Algumas das histórias de Marvel Premiere saíram pela Abril de forma não sequencial.  Depois dessas histórias iniciais, o Punho de Ferro tornou-se um daqueles personagens que apareciam esporadicamente entre as publicações. 

Depois dos eventos da saga”Guerra Civil”, com a lei de registro, Daniel Radd tenta se encontrar em sua vida de empresário e acaba se deparando com alguns segredos da cidade mística de Kun Lun, que voltaram a atormentá-lo mais uma vez. A Panini compilou toda essa fase em quatro edições especiais em “O Imortal Punho de Ferro”, em uma grande fase pelas mãos dos competentes Ed Brubaker, Matt Fraction e Travel Foreman.


Em janeiro deste ano a Panini trouxe as primeiras histórias do personagem no compilado “Marvel Epic Collection 7”. Essa publicação é a melhor edição para acompanhar as histórias que deram origem ao Imortal Punho de Ferro. Mesmo não fazendo parte do primeiro escalão, o Punho de Ferro tem um lugar garantido nos corações dos leitores. Fica o nosso registro com os 50 anos de sua criação.



Alexandre Morgado.

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2024, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Homenagem a Joe Maneely: Um dos grandes artistas da Marvel morreu há exatos 66 anos

Nascido em fevereiro de 1926, Joe Maneely foi um daqueles artistas que, certamente, entraria em qualquer lista dos melhores desenhistas dos quadrinhos de todos os tempos. Depois de passar pelo ramo publicitário, Maneely se firmaria nos quadrinhos. Passando por algumas editoras do final dos anos 1940 para os 1950, Maneely chegava ao escritório da Marvel, na transição entre a Timely e a Atlas.


 Um de seus primeiros trabalhos foi com o cowboy, “Cavaleiro Negro”, famoso personagem daquele perído da Atlas. Joe Maneely, além de talentoso era um artista veloz, o que fez com que caísse nas graças de Stan Lee. Na fase Atlas, Mannely fez de tudo um pouco: quadrinhos de humor, guerra, ficção e muitos outros. Joe Maneely era um dos grandes desenhistas da editora e tinha um futuro promissor pela frente. Ao lado de Stan Lee, Maneely fez alguns dos melhores quadrinhos do final da década de 1950. Entre eles, o pistoleiro “Rawhide Kid”, o cavaleiro medieval “Cavaleiro Negro” (Black Knight) e espionagem ( Yellow Claw). Joe era o homem de confiança de Stan Lee e ambos tinham uma ótima relação. 


O imponente “Black Knight” de Maneely.

Stan Goldberg, artista veterando da editora disse uma vez: "O maior de todos os tempos Joe Maneely, ... que eu considerei o melhor artista que já desenhou quadrinhos. ... Joe não era apenas um grande artesão; ele trabalhava tão rápido e era um dos poucos que conseguiam passar do desenho do Cavaleiro Negro ao desenho de “Peter The Pest”, ou uma história de guerra. Ele tinha um talento inacreditável e era um cara doce e legal"



Cavaleiro Negro 1 da RGE, baseado na arte de Mannely.

No dia 7 de junho de 1958, Joe Maneely, havia jantado com outros artistas da editora, incluindo, George Ward e John Severin. Após o jantar, ao tentar mudar de vagão, acabou caindo entre os vagões do trem em movimento. Uma perda irreparável, sem sombra de dúvidas.


Stan Goldberg, comentou em uma entrevista sobre a noite que antecedeu sua morte:

“... Joe [me contou] que esteve na cidade na semana anterior e perdeu os óculos. Ele nem sabia como havia chegado em casa naquele dia. Então chegou esse dia e ele saiu para beber e foi tomar um pouco de ar entre os trens, e caiu do trem. Quando o encontraram, ele ainda segurava seu portfólio. Lembro-me do [funcionário de produção] Danny Crespi me ligando no sábado de manhã para dar a notícia. ... A família passou por momentos difíceis depois que ele morreu. Os Maneely tinham filhas e muitas contas. Eles também tinham acabado de comprar uma casa grande e não tinham dinheiro guardado”.

Seus últimos trabalhos publicados foram em Ringo Kid e Gunsmoke Western, lançados em 1959. Certa vez,  Stan Lee, disse o seguinte: “Joe Maneely teria sido outro Jack Kirby. Ele teria sido o melhor que você poderia imaginar”.

No Brasil, alguns de seus trabalhos saíram pela Editora “La Selva”, na revista Cavaleiro Negro da RGE, pela Gráfica Novo Mundo, entre outras nesse período na década de 1950.



Arte de Joe Maneely na capa de Seleções em Quadrinhos 58 de 1955, publicada pela Gráfica “Chiodi”. Essa é a nossa pequena homenagem ao grande Maneely. R.I.P

*Agradecimentos ao site “Guia dos Quadrinhos” pela utilização das capas.


Alexandre Morgado.

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2024, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics.


domingo, 2 de junho de 2024

Grandes Histórias da Marvel no Brasil: Os Quadrinhos que Inspiraram X-Men '97

A animação X-Men 97, voltou a fazer os fãs da Marvel felizes novamente. X-Men 97, segue a sequência da série animada dos anos 1990 em um hiato de 28 anos, desde a última temporada. A animação é um sucesso. E acabou virando um termômetro para o que virá nos cinemas.  Inspirado em diversas histórias, sagas e contos, X-Men 97 apresentou vários momentos clássicos dos mutantes. Um fator interessante foi a mistura de épocas, em relação aos quadrinhos. Histórias publicadas na década de 1980, se encontraram com quadrinhos dos anos 1990 e 2000 e por aí vai. O alinhamento foi bem construído, e a ideia por trás disso é simples: era trazer todos os leitores, tanto os mais velhos, quanto os mais novos. Impossível não se conectar com alguns dos quadrinhos adaptados para a animação. 

Os dois primeiros episódios, “Para mim, meus X-Men” e “Começa a Libertação Mutante”, apresenta o grupo sem o seu fundador, o Professor Xavier, que havia sido levado ao império Shiar, para se recuperar de uma enfermidade. Mas antes de ser levado, o Professor deixou seu espólio nas mãos de Magneto, que por pouco tempo, acaba assumindo a frente da Escola para jovens superdotados. Nas histórias dos quadrinhos dos anos 1980 escritos por Chris Claremont, Magneto, acaba se aliando aos X-Men, auxiliando os Jovens Mutantes e também aos X-Men. A série animada, parte deste ponto, para colocar o mestre do magnetismo, ao lado dos alunos de Charles Xavier e passando por um julgamento pelos seus crimes do passado. Com arte de John Romita Jr, essa fase foi editada no Brasil pela primeira vez na Editora Abril, nos formatinhos dos X-Men na edição 24 de 1990. Recentemente, a história foi relançada no Brasil pela Panini dentro da coleção “A Saga dos X-Men” 12.

O terceiro episódio (talvez o menos inspirador da série), “Carne Feito de Sangue”, dá uma pequena pincelada na saga “Inferno”. Publicadas nas edições de X-Men 45 a 49 da Abril, a história apresenta a verdadeira face de Madelyne Pryor, mãe do filho de Scott Summers, o Ciclope, que estava destinado a se tornar o viajante do tempo, “Cable”. Madelyne, que na verdade era um clone de Jean Grey, foi criada pelo Senhor Sinistro, em um plano para gerar um filho mutante perfeito, e assim procriar mutantes sem falhas. Esse episódio não foca na saga Infernos em si, e sim, apresenta apenas fragmentos da história para essa animação. Para ler a saga Inferno, sugiro os seis compilados da Panini de 2018, que apresentam toda a série.


Uma boa sacada da animação em relação ao julgamento de Magneto, foi a conexão com a história “Morte em Vida” (The Uncanny X-Men 186 e 198), episódios 4 e 6 chamado de “Morte-Vida". Com arte de Barry Windsor-Smith, a história apresenta Ororo, sem seus poderes, buscando um novo caminho ao lado do mutante Forge. Pela Abril, saiu em X-Men 10 e 19, e mais recentemente, lançado em A Saga dos X-Men 4, pela Panini.  Essa história foi publicada também pela Salvat em “Os Heróis Mais Poderosos da Marvel 54” em 2017.



“Lembre-se Disso”, o maravilhoso quinto episódio é um daqueles que impactaram os fãs. Ao visitar a ilha de Genosha, reduto mutante autossustentável, alguns dos X-Men, como Magneto, Vampira, Gambit e Noturno, participam do Baile de Gala, organizado por alguns líderes mutantes. Inspirado na história da HQ “Hellfire Gala” (no Brasil, chamado de Baile do Inferno), que celebra um ano da fundação de Krakoa, a animação, baseado na história de Gerry Duggan, seguindo a grande fase da nova era mutante de Jonathan Hickman, pode ser conferida nas revistas de X-Men 4º série da Panini. 

E surpreendentemente, “Lembre-se Disso” emenda a história “E de Extinção”, com a dizimação mutante pelo gigantesco Sentinela de três cabeças. Nos quadrinhos, Grant Morrison assumiu os mutantes nos anos 2000, e passou a ser o responsável pelas novas histórias dos X-Men com a saga E de Extinção. Grant Morrison começava sua era apresentando a irmã maligna do Professor-X, chamada “Cassandra Nova”. Uma mutante que arquitetava um plano de reativação dos Sentinelas. O objetivo era exterminar todos os mutantes da ilha de Genosha, resultando em milhares de mutantes assassinados, entre eles o líder e regente da ilha, o mutante Magneto. As novas histórias contavam com os desenhos do ótimo Frank Quitely. Publicada a partir de X-Men 9 (1º série) de setembro de 2002, o começo arrebatador de Grant Morrison, foi compilado em diversas edições pela Panini e pela Salvat na Coleção Oficial de Graphic Novels 23. E a trilha sonora, com a música “Happy Nation” do grupo “Ace of Base”, é a cereja do bolo deste incrível episódio.



O sétimo episódio, “Olhos Brilhantes”, mostra as consequências da extinção do episódio cinco, ao mesmo tempo que apresenta outra saga do final dos anos 1990: A Operação Tolerância Zero. A história apresenta uma força- tarefa, liderada pelo misterioso “Bastion”, com intuito de erradicar os mutantes de vez. A saga que serviu de inspiração para esse episódio e também para os três últimos episódios ( Tolerância e Extinção parte 1, 2 e 3), teve suas HQs publicadas pela primeira vez no Brasil pela Editora Abril em X-Men 127, 128 e Wolverine 87 e 88 em 1999. Em 2022, a Panini compilou a história em uma edição especial “As Maiores Sagas X-Men”.



No episódio 9 com a segunda parte de Tolerância e Extinção, a série inseriu outra história dos mutantes, chamada “Atrações Fatais”. Publicado pela primeira vez em 1996 pela Abril em “X-Men Gigante 2”, Atrações Fatais, mostra Magneto arrancando o metal adamantium de Wolverine pelos poros de seu corpo. Nessa saga, ficou explicado que as garras do Wolverine faziam parte de sua estrutura genética. As garras, que são ossos retráteis, juntamente com o seu dom de cura, sempre fizeram parte da fisiologia do personagem. Em X-Men 97, a cena clássica, é muito parecida com o que foi publicado nos quadrinhos. Em 2014, a Panini compilou essa fase em três edições com o nome “Atração Fatal”.

Por fim, o último e ótimo episódio, deixou muitas brechas para a próxima temporada. Com a luta final entre Bastion e os X-Men, com a destruição do Asteróide M, boa parte dos X-Men são jogados para o passado e para o futuro. Enquanto Vampira e Noturno, são jogados ao antigo Egito, dando de cara com o “En Sabah Nur”, o mutante que viria a ser conhecido como Apocalipse, Ciclope e Jean Grey, vão direto para o futuro distante, se encontrando com um jovem Nathan.

Com a apresentação de En Sabah Nur, o episódio se baseou na minissérie “A Ascensão do Apocalipse”, onde é apresentado a origem do poderoso mutante. Essa história foi publicada pela Abril, em 1998. Já Ciclope e Jean Grey no futuro acabou remetendo às minisséries: “As Aventuras de Ciclope e Fênix” de 1996 e “As Aventuras do Jovem Cable” de 1998, ambas em duas edições lançadas pela Editora Abril.




E com o confronto mental entre Charles Xavier e Magneto no episódio 10, será que teremos a aparição de Onslaught, conhecido no Brasil de Massacre? Se tiver que apostar, eu acredito que sim. X-Men 97, trouxe de forma brilhante, os dramas, os conflitos e toda a complexa cronologia dos Mutantes para a Marvel Studios. Agora é aguardar as próximas temporadas.

Alexandre Morgado.

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2024, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics.


domingo, 12 de maio de 2024

Grandes Histórias Marvel no Brasil: As 55 editoras Brasileiras da Marvel

Em 84 anos de Marvel no Brasil, a Casa das Ideias passou por 55 editoras entre 1940 a 2024. Acredito que o Brasil é recordista mundial nesse quesito com a Marvel. Nessa lista temos editoras pioneiras, editoras tradicionais, editoras importantes, editoras que publicaram apenas uma revista e editoras que você nunca ouviu falar. Nessa trajetória, estamos considerando as histórias desde a era Timely até o presente. 

1 O Globo

Fundada pelo empresário Roberto Marinho, o jornal O Globo também investiu no segmento de quadrinhos a partir de 1937. Foi nessa nova triagem que surgiu Alfredo Machado, um dos profissionais do meio editorial, atuante em diversas editoras do período. Foi Alfredo Machado que descobriu a existência dos personagens da Timely. O interesse pelos novos personagens foi tanto que o próprio escreveu uma carta para a Timely, perguntado “como licenciar o Tocha-Humana e outros personagens no Brasil”. Algumas semanas depois, receberia uma caixa cheia de revistas originais e o contrato. Logo os personagens da futura Marvel estariam no Brasil. Com tantas novas publicações chegando, títulos como: “Gibi Mensal”, “O Globo Juvenil” e “Biriba Mensal”, apresentaram as primeiras histórias de “Namor”, “Tocha Humana”, “Marvel Boy”, “Ciclone”, entre outros. O Globo editou quadrinhos entre 1937 a 1952.


2 Grande Consórcio Suplementos Nacionais

Antes da Ebal, Adolfo Aizen, responsável por trazer os suplementos americanos ao Brasil. Aizen trabalhou com diversas editoras e jornais na década de 1920, entre elas a revista O Malho, no jornal A Nação e na revista O Tico-Tico. Algum tempo depois, com ajuda de amigos, Aizen criou o “Grande Consórcio Suplementos Nacionais” trazendo diversos personagens para suas publicações. Com a era Timely, foram publicados os personagens “O Cavaleiro Mascarado”, “Anjo” e “Mulher Pantera” nas edições de “Mirim” e também no “Suplemento Juvenil”. A editora operou entre 1934 a 1949.


3 Diário da Noite

Assis Chateaubriand, comandava um grande conglomerado de rádio, revistas e TV e com o crescente sucesso dos quadrinhos, acabou investindo também nesse segmento. Chatô fundou a revista “O Guri”, um sucesso de vendas que passava dos 100 mil exemplares por edição. O Diário da Noite foi a terceira editora com a fase Timely no Brasil. A revista O Guri foi a primeira revista em quadrinhos colorida publicada no Brasil, um avanço para a época. Foi pelo Diário da Noite que o “Capitão América” fez sua estreia no Brasil. As publicações do Diário da Noite saíram entre 1941 a 1953.


4 Vida Doméstica

 Fundada em 1920, a “Sociedade Gráfica Vida Doméstica” passou a publicar quadrinhos somente em 1947. Sua principal publicação era com a revista de variedades Vida Doméstica, direcionada para donas de casa. Com a Timely, a Vida Doméstica publicou a revista “Vida Infantil”, com o personagem “Super Rabbit”, uma paródia inspirada nos super-heróis do momento. O personagem antropomórfico foi um dos primeiros do gênero a figurar pela Timely. No Brasil, o personagem foi chamado de Super-Coelho e Coelho Valente. A editora publicou também o fantasminha infantil, “Homer”. A editora ficou no mercado com quadrinhos até 1954.


5 Fon-Fon

A Fon-Fon era uma revista famosa que não era propriamente de quadrinhos, mas sim de  humor e crítica social que saiu durante os anos 1907 a 1958. O slogan da revista era: Para os graves problemas da vida, para a mascarada Política, para a sisudez conselheira das Finanças e da intrincada complicação dos Princípios Sociais, cá temos a resposta própria: aperta-se a sirene, e... Fon-Fon! Fon-Fon! O nome Fon-Fon era a onomatopeia do som de uma buzina, daí o nome da revista. A Fon-Fon publicava quadrinhos eventualmente. Em um desses raros momentos, a Fon-Fon publicou em 1949 a história do “Ricardo-Coração de Leão” com roteiros de Stan Lee, baseado na figura do Rei Ricardo da Inglaterra.


6 A Noite

A editora do Jornal “A Noite” funcionou entre 1911 e 1957 e nesse período publicou Histórias em Quadrinhos. Uma de suas publicações foi com a revista “Club dos Amores”, uma revista semanal composta por fotonovelas e histórias de romance. Uma das publicações contou com as histórias da fase Atlas, período pré-Marvel. As histórias foram extraídas da revista My Own Romance que já tinha Stan Lee como editor chefe. 


7 O Cruzeiro

O Diário da Noite encerrou a revista O Guri na edição 354 em dezembro de 1953. No ano seguinte começou uma nova coleção de O Guri, desta vez pela editora “O Cruzeiro”. Assis Chateaubriand, aproveitando o sucesso de uma de suas revistas chamada O Cruzeiro, decide criar uma editora com o mesmo nome. O Cruzeiro foi uma revista semanal de variedades de muito sucesso publicada desde o final dos anos 1920. Com a Cruzeiro, Assis Chateaubriand lançaria outras revistas além de O Guri, direcionando ainda mais sua linha de produção. Com a segunda série de O Guri, poucas histórias dessa fase da Marvel foram publicadas. O Capitão América por exemplo foi um que saiu em poucas edições de O Guri. A editora funcionou até 1974.


8 Última Hora

O suplemento “Última Hora” foi uma publicação do jornal carioca Última Hora, fundado pelo jornalista Samuel Wainer em 1951. Assim como o Consórcio, o jornal Última Hora criou seu próprio suplemento. A publicação durou até 1952 com 211 edições lançadas. O personagem “Kid Colt” e “Meco-Meco, o Pato” (Buck Duck), foram publicados em algumas dessas edições.


9 RGE (Rio Gráfica Editora)

Em 1952, Roberto Marinho resolveu criar uma empresa específica para editar os seus quadrinhos. O nome Editora Globo foi pensado, porém não poderia ser usado. Tudo porque já existia uma livraria e editora no Rio Grande do Sul, que possuía o registro com esse nome. Por isso, Marinho criou em 1952 a RGE (Rio Gráfica e Editora). A nova editora retoma os títulos Gibi Mensal a partir da edição 138 e O Globo Juvenil Mensal, a partir do 140. A editora teve duas fases com a Marvel: a primeira, com o final da era Timely passando pela Atlas com o “Cavaleiro Negro”, algumas com o Capitão América e com Namor em “Biriba-Shazam” e “Shazam”, publicadas na dévada de 1950. Anos depois, a RGE retornava à era Marvel, com o Homem-Aranha, Hulk e X-Men entre 1979 a 1983. A RGE durou até 1987. 


10 La Selva

Fundada em 1950 pelo imigrante italiano Vito La Selva, a “Editora La Selva”foi a primeira editora de São Paulo. Uma das primeiras publicações foi a revista “Cômico Colegial”, A revista era um mix de vários personagens e histórias diversas. Muitas histórias dos mais diferentes gêneros foram publicadas pela La Selva, inclusive material da fase Atlas nas revistas: “O Terror Negro”, “Seleçõs Juvenis”, “Seleções em Quadrinhos” entre muitas outras. A La Selva atuou até 1970.


11 Edições Júpiter

A Júpiter era uma pequena editora que publicava material nacional, administrada por Auro Teixeira com Gedeone Malagola como editor. A editora, devido a diversos problemas, durou apenas alguns anos. A única revista da Júpiter com material da Atlas foi a “Sepulcro”, em apenas uma edição com histórias de Stan Lee, Joe Maneely e Dick Ayers.


12 Chiodi,Oliveira e Cia Ltda.

Antes da Gráfica Novo Mundo, havia a “Chiodi, Oliveira e Cia Ltda” que pode ser considerada o início da Gráfica Novo Mundo. Fundada por Victor Chiodi, Reinaldo de Oliveira e Miguel Penteado,a Chiodi, foi publicada uma coleção chamada “Corações”. Com seis edições lançadas, Corações trouxe histórias extraídas de Loves Romances, My Own Romance e Secret Story Romances, todos da fase Atlas. A editora funcionou entre 1954 a 1956.


13 Gráfica Novo Mundo

A Gráfica Novo Mundo foi comandada pelo imigrante italiano, Victor Chiodi. Depois de fazer alguns trabalhos pela La Selva, Chiodi se interessou por publicar suas próprias revistas. 

A editora lançou a série para "Seleções em Quadrinhos", com o título de "Conquistadores do Espaço", com algumas histórias de Strange Tales, Journey, Into Mystery e Tales to Astonish. Dentro da coleção Seleções, fugindo um pouco das histórias de terror e de ficção, a Novo Mundo publicou a personagem Lili, a Garôta Atômica (Millie the Model, no original). Lili, a Garôta Atômica foi uma das poucas personagens que foram criadas no período Timely e que manteve as suas publicações durante a fase Atlas, até chegar à Marvel.

A Novo Mundo lançou também a revista chamada "Gato Preto" - focada no gênero terror. Algumas edições de "Gato Preto" apresentavam histórias de Journey Into Mystery e Adventures Into Weird Worlds. Ainda nesse gênero, a editora publicou mais uma revista, com o lançamento do "Mundo de Sombras", em 1955. "Mundo de Sombras" seria mais uma publicação com diversas tramas de terror e com mais algumas histórias do período Atlas. A editora ficou na atividade até 1967.


14 Garimar S/A

A Garimar S/A ficava localizada no Rio de Janeiro. No seu período de publicações, editou quadrinhos entre 1957 a 1968. Em seu catálogo consta a publicação da revista “Valor”, com histórias de “Jane das Selvas” de Don Rico e Jay Scott Pike.


15 Regiart

O editor, José Sidekerskis foi sócio minoritário da Continental, juntamente com Jayme Cortez e Miguel Penteado. Depois que ambos saíram da sociedade, José, mais conhecido como Zelão no meio editorial, continuou durante mais algum tempo na editora. Mas logo criaria a sua própria: a Regiart. Uma das suas publicações com a Atlas na Regiart, foi com essa publicação de "Fantásticas Aventuras". A Regiart editou quadrinhos entre 1966 a 1974.


16 Dado

Waldomiro Barbosa da Silva foi um jornaleiro do Rio de Janeiro que comandava uma rede de publicações no Largo da Lapa. Waldomiro comprou alguns títulos de encalhes da APLA, como: As Grande Batalhas e Batalhas Sangrentas, com histórias de guerra da Atlas entre outros títulos. Pela editora Dado, publicou uma revista chamada “Maldição”. A publicação apresentava histórias de Journey, Into Mystery, Tales To Astonish e Amazing Adventures. A Dado existiu entre 1965 a 1968.


17 Jotaesse

José Sidekerskis também é responsável pela Jotaesse (J.S. eram as iniciais de José Sidekerskis). A editora era localizada em São Paulo e um dos seus principais títulos foi a revista “O Vampiro”. Focado no gênero, Zelão apostou em Mirza, a Mulher Vampiro de Eugênio Colonnese, a personagem principal nessa revista. E entre uma edição e outra, a Jotaesse publicou algumas das Atlas retiradas de Tales To Astonish, Uncanny Tales e Journey Into Mystery. A Jotaesse funcionou até 1971.

 

18 EBAL (Editora Brasil América Ltda)

A editora que trouxe a Marvel ao Brasil. Homem de Ferro, Hulk, Thor, Homem-Aranha, Demolidor, Quarteto Fantástico, fizeram suas estreias. A Ebal editou a Marvel entre 1967 a 1975.


19 GEP (Gráfica Editora Penteado) 

A GEP de Miguel Penteado publicou o que a Ebal não quiz, entre as publicações, estavam os X-Men, Surfisa Prateado e o Capitão Marvel. A editora publicou suas revistas entre 1969 e 1970.


20 Trieste

A Trieste, administrada por Estevão La Selva, foi uma editora pequena de São Paulo. A La Selva publicou o inédito Nick Fury de Jim Steranko. A editora publicou também a mensal da Lili, a Garota Modelo. 


21 O Livreiro

A editora O Livreiro foi uma empresa situada em São Paulo e comandada por Horley Chiodi, filho de Victor Chiodi, dono da Gráfica Novo Mundo. O Livreiro publicou alguns materiais da Atlas na revista “Fantastic”. A revista durou pouco, assim como a editora.


22 Paladino

A Editora Paladino era uma gráfica localizada em São Paulo comandada por Savério Fittipaldi e sua família. Savério acabou criando o formato “livro”, uma tática para poder licenciar alguns personagens que estavam em posse de outras editoras. Pela Paladino saiu Sargento Fury e Kazar.


23 Minami & Cunha

Depois de passar pelas editoras Pan Juvenil e Edrel, Minami Keizi fundou a Minami & Cunha Editores, ao lado do empresário Carlos Cunha. A M&C, trouxe as histórias solos do Dr Estranho, com o nome de Dr. Mistério. A editora, infelizmente durou pouco, e logo seria encerrada.


24 GEA (Grupo de Editores Associados)

A GEA (Grupo de Editores Associados), administrada por Ernesto S. Carneiro, foi uma editora que ficava localizada no centro do Rio de Janeiro. Em 1972, a Ebal tinha descartado alguns personagens, com isso, muitos heróis foram parar na GEA. Suas publicações tinham uma excelente apresentação, bem próximo do material americano. Foram apenas 14 edições publicadas pela GEA: três edições do Quarteto Fantástico, três do O Invencível Homem de Ferro, três do Defensor Destemido (o nosso querido Demolidor), duas do Príncipe Submarino (Namor), duas de O Poderoso Thor e uma de O Incrível Hulk. Por problemas com o distribuidor, a GEA durou apenas um ano.


25 Interpolar

Outra editora da família Fittipaldi. Pela Interpolar, foi lançada uma edição de Ringo Kid, personagem do período Atlas, criado pelo artista Joe Maneely. As edições em formato livro da editora acabaram não tendo resultados positivos. 

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26 Taika

A Editora Continental, fundada em 1959, alterou a razão social para Outubro em 1961, devido a mudanças e conflitos entre os sócios. Até que, em 1966, mudou mais uma vez, agora para Taika. Essa mudança ocorreu devido à Editora Abril ter registrado todos os nomes dos meses do ano e entrado na justiça para evitar que fosse usado por outras editoras. Os novos sócios da Taika eram Eli Lacerda e Manoel César Cassoli. O nome da empresa era uma homenagem à filha de Lacerda. Algumas das poucas histórias da Marvel foram lançadas pela Taika nesta edição de “Fantásticas Aventuras”, Detalhe da revista que teve apenas um número com histórias da fase Atlas.


27 Saber S/A

Mais uma da família Fittipaldi. A Editora Saber teve como grande mérito ter sido a primeira a publicar as histórias de Drácula no Brasil. A publicação foi batizada como “O Túmulo do Conde Drácula”, com apenas um número.  


28 Graúna

A Editora Graúna foi uma empresa paulistana, fundada em 1967 por Ulisses Alves de Sousa e pelo experiente Reinaldo de Oliveira, um dos pioneiros no ramo de publicações no Brasil, tendo passado por diversas editoras durante sua carreira. A Graúna publicou uma edição de Conan com o nome Hartan, o Selvagem. A editora publicou também em apenas uma edição, a revista "História de Amor", extraída do título original “Our Love Story". A editora deixou de publicar quadrinhos nesse mesmo ano de 1973.


29 Roval

A Editora Roval foi fundada em 1971  por Salvador Bentivegna, um dos profissionais mais atuantes do mercado editorial brasileiro, tendo trabalhado em várias editoras como a Pan Juvenil, Um dos primeiros trabalhos feitos pela editora foi "O Monstro de Frankenstein",em três edições.  Outro personagem que retornaria às bancas seria Conan. Dessa vez, como "Conan, o Selvagem", em três edições. Histórias publicadas dos títulos originais Conan The Barbarian.


30 Gorrion

Fundada em 1973 por Walter Andrade, Victor Simões e Dino Mengozi, a Gorrion foi uma editora picareta que enganava o distribuidor. Publicou o inédito Luke Cage, A Enfermeira da Noite e Kull com o nome Koll. A editora, por problemas de capacidade, fechou logo após alguns anos.


31 Kultus

Após alguns problemas em certas publicações, e outros envolvendo a Editora Roval com a Gorrion, Salvador Bentivegna ainda abriria uma nova editora, a Editora Kultus. Na Kultus, publicou a edição “Estórias de Terror” n° 08  com uma aventura do personagem Ka-Zar, a história de Astonishing Tales nº16, produzida por Mike Friedrich e Rich Buckler. Logo a editora deixaria de existir.


32 Bloch

A única editora que fez um contrato de exclusividade com a Marvel no Brasil. Fundada por Adolpho Bloch, os gibis ultra coloridos acabaram não pegando muito. Editou material da Marvel entre 1975 a 1979.


33  Signo

Depois da Dado, Waldomiro lançou em 1977 outra revista chamada Maldição com histórias da era Atlas. E foi só.


34 Editora Abril

Uma das maiores editoras desse país. Editou o Universo Marvel de 1979 a 2001, formando uma geração de leitores. Superaventuras Marvel, Grande Heróis Marvel, A Espada Selvagem de Conan, e mais uma infinidade de maravilhas!


35 Fittipaldi Ltda

A Editora Fittipaldi publicou em 1981 apenas quatro edições da revista Crazy (a revista que ousa ser estúpida), uma das publicações cômicas produzidas pela Marvel. Esse material não tem influência direta com o Universo Marvel. 


36 A Tribuna

A Marvel criou em 1984 um selo chamado Star Comics, destinado ao gênero infantil. A editora fez adaptações para os quadrinhos com vários desenhos animados, brinquedos e programas infantis. Entre eles os Flintstones, que foi publicado no Brasil pela “Tribuna Editora” do jornal A Tribuna de Santos, fundada em 1894 por M. Nascimento Jr, Giusfredo Santini e Roberto Mário Santini. A Tribuna publicou a série “Os Flintstones Nos Anos Dourados", baseado nos personagens de Hanna-Barbera. 


37 Toviassú Produções Artísticas

O Casseta & Planeta, famoso programa de TV da Rede Globo, ficou no ar por mais de 20 anos. O que pouca gente sabe é que publicam quadrinhos no Brasil. Conectados por tudo que pudesse gerar diversão e bons negócios, os integrantes criaram a editora Toviassú Produções Artísticas, que significava Todo Viado é Surdo Produções. E o gimmick era uma simpática velhinha (transexual?) com um cone para ouvir melhor. A Toviassú publicou duas edições de A Hora do Pesadelo com histórias inspiradas na clássica franquia dos cinemas com as horripilantes histórias de Freddy Krueger.


38 Editora Globo

Roberto Marinho fecha a RGE, e abre a Editora Globo. A nova editora, sob o comando do editor Leandro Luigi, recém saído da Abril, assumiu diversos títulos importantes. Entre eles a linha Epic com o personagem cósmico Dreadstar de Jim Starlin. Depois vieram, Excalibur, Motoqueiro Fantasma, Esquadrão Supremo. Devido a crise econômica, a Marvel durou pouco na Editora Globo.


39 Maceca

A Editora Maceca, era administrada por Manoel César Cassoli, um dos fundadores da Editora Taika, que tinha como colaboradores o artista português radicado no Brasil Jayme Cortez e Nico Rosso. Em um curto espaço de tempo, a Maceca (nome que era derivado das iniciais de Manoel César Cassoli) publicou apenas quatro revistas em seu catálogo. Dessas quatro revistas, apenas uma com material do período Atlas, na edição Seleções de Terror 1, em 1993 com a primeira aparição do personagem Groot, dos Guardiões da Galáxia, por Stan Lee & Jack Kirby.


40 Escala

A Escala, editora de São Paulo, foi fundada por Hercílio de Lourenzi em 1992. Ela publicou a série Beavis and Butt-Head, baseada na animação exibida pela MTV. Licenciado pela Marvel, os estranhos personagens ganharam no Brasil, além de uma edição especial, uma série mensal entre 1996 e 1997 em 17 edições. Essas revistas contam com aparições de alguns heróis, como: Namor, Hulk, Máquina de Combate, entre outros, dentro das confusões dos dois personagens.


41 Mythos

Depois da criação do Estúdio Art & Comics, a agência criada por Hélcio de Carvalho se transformou numa editora. O estúdio administrado por Hélcio e Dorival Lopes iria se tornar a Mythos Editora, em 1996. A Abril tinha a primeira opção de escolha em todo o material Marvel e como Hélcio conhecia Marco Lupoi, diretor de licenciamento da Panini (Itália), que negociava as licenças da Marvel em todo o mundo, passou a licenciar alguns da Marvel. A primeira foi com o mais misterioso dos X-Men, com o mutante Gambit em uma minissérie produzida por Howard Mackie e Lee Weeks. Com o fim da Ica Press, a Panini Itália licenciou o material fora dos Estados Unidos. A partir daqui, algumas outras editoras publicaram alguns títulos da Marvel, além da Abril.


42 Metal Pesado

Com sede em São Paulo, a editora Metal Pesado foi fundada por Leão Azulay, em 1997, e tinha como editor das revistas Eloyr Pacheco. A editora publicou diversos títulos da DC Comics, especialmente da linha Vertigo. Pela Marvel, foram apenas três títulos publicados. Duas edições especiais, com os encontros entre os personagens da Marvel e da Image com Gen 13 e Geração X, a série Clã Destino de Alan Davis e essa edição especial com o Doutor Estranho em uma história de P. Craig Russell.


43 Tudo em Quadrinhos

A Metal Pesado, por razões fiscais, acabou mudando de nome, durante sua permanência no mercado nacional, para Tudo em Quadrinhos e posteriormente, para Atitude. Constantes mudanças e má administração fizeram com que ela encerrasse suas atividades em 1999. A série Clã Destino, com personagens da desconhecida família Destino, que agia secretamente, foi publicada pela Metal Pesado em formato de minissérie, e compilada pela Tudo em Quadrinhos, como sua única publicação da Marvel.


44 Pandora Books

A editora Pandora Books, tinha como administradores os editores Leandro Luigi Del Manto (que já tinha deixado a Editora Globo), Maurício Muniz e Ricardo Giassetti.  A Panini acabou cedendo algumas revistas da Marvel para serem publicadas pela Pandora, porém, foram poucas as publicações, destaque para a série do Capitão Bretanha de Alan Moore e Alan Davis. A Pandora publicou Almanaque Marvel e mais alguns especiais, apenas.


45 Panini

A Toda poderosa. A marca Panini é a marca responsável pela Marvel fora dos Estados Unidos. Neste ano de 2024, a Panini será a editora que mais tempo ficou com a Marvel no Brasil.


46 Opera Graphica

A Opera Graphica foi inaugurada como um selo pelo proprietário da loja Comix Book Shop, de São Paulo, Carlos Mann, em parceria com o grande editor Franco de Rosa. A Opera Graphica investiu em diversos álbuns de luxo, de vários licenciadores. Com a Marvel, a Opera Graphica publicou apenas a revista Stripmania com as clássicas tiras do Homem-Aranha por Lee & Romita. Stripmania foi publicada entre 2001 e 2003, com apenas três edições.


47 A&C Editores

Em 2003, surgiu nas bancas uma nova editora, chamada A & C Editores. Essa nova empresa publicou apenas dois títulos: Batman e Deathblow da DC e um da Marvel, com um crossover entre Batman & Demolidor. Posteriormente aos lançamentos, foi descoberto que A & C Editores fazia parte de um braço editorial experimental, criado pela Mythos por questões estratégicas e de avaliação do mercado. A & C Editores deriva de Art & Comics, o estúdio criado por Hélcio e seu sócio, Dorival Vitor Lopes. A A & C ficou apenas nessas duas publicações.


48 Brainstore

Eloyr Pacheco fundou em 1999 a Brainstore Editora. A nova empresa daria sequência nos títulos da DC, continuando de onde a Tudo em Quadrinhos havia parado. Com a Marvel, a Brainstore publicou, em 2003, uma edição especial da série Hellraiser, de Clive Barker e a série Legião Alien de Alan Zelenetz e Carl Potts, em cinco edições das nove que estavam programadas. Ambas as publicações são da linha Epic da Marvel. Em 2005, a editora teve a sua sede invadida, tendo todos os equipamentos roubados, e muitos dos trabalhos em produção foram perdidos, pois vários deles ainda não tinham backup. Após os prejuízos, a editora, infelizmente, fechou as portas.


49 On Line Editora

A Editora Online, fundada em 1995, tem uma vasta experiência no mercado de publicações. Especializada nos segmentos de beleza, moda, culinária entre outros, acabou também publicando em seu catálogo, alguns quadrinhos. Com a Marvel, a Online publicou em 2007 quatro edições, focadas no terceiro filme do Homem-Aranha, com o ator Tobey Maguire no papel de Peter Parker, e uma edição com o primeiro filme do Homem de Ferro, todas em formatinho e focadas no público infantil. 


50 Salvat

A Editora Salvat foi fundada em Barcelona, em 1869, e faz parte da multinacional francesa Hachette Livre, que está presente em países de língua espanhola e portuguesa. Somente em 2013 a Salvat entrou no mercado de histórias em quadrinhos, dando início com a série de Graphic Novels chamada “A Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel”. Uma coleção fechada, composta, a princípio, por 60 edições, desenvolvida em 2013 pela editora britânica Hachette Partworks, subsidiária da multinacional Hachette Livre. A nova coleção começou no Brasil como um teste de mercado, com as quatro primeiras edições setorizadas em apenas algumas cidades. Sempre em capa dura, papel especial, recheadas com vários extras, galeria de imagens, dados técnicos dos personagens, indicações de leitura complementares, mini biografias dos artistas presentes em cada volume e por fim, talvez o maior de todos esses atrativos, e que acabou criando um novo tipo de colecionismo: o das lombadas, que no caso dessa coleção ao serem organizadas lateralmente formam uma imagem. 


51 Planeta do Brasil

Dexter, o psicopata criado por Jeff Lindsay, ganhou uma adaptação pela Marvel com arte de Dalibor Talajic. No Brasil, a série ganhou essa edição especial pela Planeta do Brasil, empresa que faz parte do Grupo Planeta, editora espanhola, fundada em 1949. Esse foi o único material da editora Planeta do Brasil com a Marvel.


52 Darkside Books

A Darkside Books, uma das editoras mais interessantes do mercado, tem em seu catálogo uma publicação da Marvel. Bem, não é sobre o Universo Marvel propriamente dito, mas uma adaptação da obra de Stephen King chamada N, publicada pela Marvel. A série adaptada para os quadrinhos por Marc Guggenheim, escritor do Homem-Aranha e Alex Maleev, artista do Demolidor, apresenta um pequeno conto de terror do aclamado escritor do gênero. N é o nome do paciente que sofre de T.O.C (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), em uma história angustiante e bem contada, guiada pela psique humana.


53 Planeta DeAgostini

Após a Salvat encerrar as coleções da Marvel, eis que a editora Planeta DeAgostini, sem anunciar e sem fazer nenhuma propaganda, dava início a uma fase de teste, com a nova coleção chamada, A Coleção Definitiva Marvel: Os Vingadores. A Planeta DeAgostini, criada na Espanha em 1949, iniciou suas operações no Brasil em 1995, comercializando coleções culturais, de hobby e lazer nas bancas de todo o país e por meio de assinaturas. A nova coleção com Leandro Luigi como editor, faz parte de uma parceria entre a editora e a Panini Itália. Programada para 60 edições, a editora publicou apenas as quatro primeiras, em mais uma coleção incompleta no Brasil.


54 Culturama

Uma das editoras mais legais do momento, a Culturama, com sede no Rio Grande do Sul, foi criada em 2003 e tem como referência a publicação de livros infantis e a exclusividade com o material da Disney. A editora, em seu catálogo, licencia também material de Star Wars, Turma da Mônica e da Marvel. Os primeiros lançamentos com o Universo Marvel foram com esta edição luxuosa em capa dura da Viúva Negra e Os Eternos, com detalhes sobre a produção dos filmes e uma história em quadrinhos.


55 Excelsior

A Editora Excelsior, vem editando alguns livros com os contos literários da Marvel. E pela primeira vez, a editora apresenta uma história em quadrinhos, com a edição de “Vingadores do Futuro” no estilo Mangá em uma divertida história produzida pelo artista Teruaki Mizuno 


 Estão aí, todas as editoras no Brasil. Me conta, quais você não conhecia!


Alexandre Morgado.

Alexandre Morgado é cartorário do 15° Tabelionato de São Paulo. É também autor do livro Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias do Brasil, livro que narra a história da Marvel em nosso país, relançado em 2021. Em 2023, participou do livro “Olhares Sobre os X-Men”, ao lado de outros autores, sobre a mitologia dos mutantes. O autor possui um acervo gigante de HQs, principalmente com material da Marvel Comics