segunda-feira, 18 de março de 2019

Arquivo Carol Danvers #4: Vivendo seu pior momento



Mesmo despontando nos X-Men, escrever a revista da Ms. Marvel foi um desafio para Chris Claremont. Acompanhamos no arquivo anterior como o cara se desdobrou por várias e várias edições para chegar as coisas que ele se sentia confortável em usar com a personagem. Estava então chegando a marcante edição #20, um feito em termos de revistinha de super-heróis protagonizada por mulheres na Marvel.

Ms. Marvel inclusive chegou a abrir portas para mais outras mulheres na editora e fazendo com que Marv Wolfman, editor e escritor na época, tomasse as rédeas da Mulher-Aranha (da Jessica Drew) e seguisse com sua própria mensal. Então, imagine a surpresa que foi para Chris Claremont quando soube que a revista seria cancelada na edição #23 mesmo que ele tivesse já duas histórias escritas prontas. Mas o pior ainda estava por vir...

MUDANÇA DE VISUAL

Com um time de personagens coadjuvantes só seu, os poderes finalmente melhor abordados e sem aquele problema de memória que só atrapalhava a história, Chris Claremont estava finalmente se encontrando com a personagem e começou a realmente ter um carinho especial por ela. Por isso, quando surgiu a primeira oportunidade, pediu que a Marvel colocasse seu outrora desenhista dose X-Men, David Cockrum, para desenhar o título.

Só que Cockrum tinha uma exigência, ele queria redesenhar por completo aquele uniforme dela. Claremont foi mais que simpático a ideia. Na verdade, em um texto publicado em anexo lá pela edição 21 de Ms. Marvel ele conta que aquela roupa dava a ela uma falta de identidade, já que era a mesma roupa do Mar-Vell só que adaptado pra uma mulher. Porém, havia uma discussão no editorial para mantê-la desse jeito sempre e e isso fez Chris empurrar com a barriga. Quando Cockrum fez sua exigência, Chris estava mais que pronto para a mudança. Ele inclusive criou aquela história na edição #19 com o Mar-Vell quase como uma despedida e um marco para mostrar que vinha algo diferente aí.


Além disso, quem leu a história da edição #18 da Ms. Marvel, viu a personagem abandonar o traje clássico por um tempo para um "teste" com um "proto-novo-traje". Nessa edição, Carol comenta que é muito melhor lutar com os braços sem mangas, o que amplia seus movimentos. Daí, na marcante edição #20 ela estrearia a nova roupa que a definiu por anos e anos como Ms. Marvel, a preta com o gigante raio atravessando o corpo. A faixa vermelha era algo a mais, que sempre me perguntei se não seria um novo uso da sua antiga echarpe.

Como curiosidade desse momento, temos a lembrança de Claremont dizendo que até o último instante Stan Lee se negava a mudança, e então foi necessário eles invadirem o escritório dele com vários sketches até um cair no gosto de Stan. Cockrum desenhou outros modelos que Claremont chegou a divulgar alguns num dos seus textos, mas acabou um sendo aquele simples "maiô" o escolhido. A diferença maior foi que ao invés de preto, seria banco no rascunho original de Cockrum. A mudança de cor veio de última hora com Stan Lee decidindo colocá-lo no tom preto por questões gráficas. Stan no fundo amou o resultado, além de ser algo único, era até mais fácil de desenhistas trabalharem nele.



TORNANDO-SE UMA VINGADORA

Os primeiros sinais sombrios para a personagem vieram com as mudanças na hierarquia do editorial. Foi mais ou menos nessa mesma época que houve uma mexida no esquema do 'Bullpen' da Marvel e foi restabelecida a função de um só editor-chefe. O temível Jim Shooter tomava o maior posto abaixo de Stan Lee e deu início a seu reinado de Terror. E não, não estou exagerando.

Não se sabe muito bem se foi uma ordem direta, ou partiu do Claremont, mas foi logo após Shooter assumir o posto de editor-chefe que Chris realizou um encontro entre a Ms. Marvel e os Vingadores na edição  mensal dela de número 18. Foi algo que veio do nada. No meio da sua briga contra o Centurião, os dois desabaram pra dentro da mansão dos Vingadores e toda a equipe de Mais Poderosos Heróis da Terra se juntaram a ela. Foi algo um tanto exagerado contra um só cara malvado, diga-se de passagem.



Na mesma época, Ms. Marvel apareceu também nas histórias dos Vingadores ajudando o grupo a achar a foragida Jocasta e logo em seguida se envolveu junto com o grupo na famigerada Saga de Korvac. E quando a equipe foi reformulada a pedido de Peter Gyrich, eis que ela foi convidada a se juntar aos Mais Poderosos Heróis da Terra no lugar vago deixado com a saída da Feiticeira Escarlate.

Inicialmente, Ms Marvel estava bem relutante de trabalhar em grupo afim de preservar sua identidade secreta. Contudo, foi estabelecido pela equipe que ela não precisava revelar quem era e ela passou assim a ser a personagem dali mais distante e reservada do time. Durante seu curto tempo como membro, lutou contra o Homem Absorvente, Chthon, o Gárgula Cinzento, os Elementos da Perdição e o Treinador. Aos poucos, foi construindo uma amizade com aqueles heróis, principalmente o Magnum, Simon Williams, e a e a Feiticeira Escarlate, Wanda Maximoff, a quem Carol seria a primeira a confiar a revelação de sua identidade para junto revelar outro segredo.

EDIÇÕES CANCELADAS E A MORTE DE UM AMIGO

Não há nenhuma explicação oficial para esse cancelamento, mas mal ela entrou na equipe dos Vingadores, a revista da Ms. Marvel recebeu cartão vermelho pelo pessoal do editorial. E certamente não foi algo esperado, já que segundo o roteirista Chris Claremont, existiam mais história (até a edição 25) prontas e até com algumas artes. Caso fosse realmente baixas vendas, não seria uma atitude assim tomada tão de repente naquela época.

Naquele momento, depois que mudou de uniforme, Carol passou a tomar uma posição ainda mais pró-ativa no seu jornalismo investigativo, algo que certamente não condizia muito com o que J. Jonah Jamenson esperava dela como editora. Chegou a viajar para o Novo México para salvar a repórter e colega Sharon Cole que foi feita refém junto com outros humanos por uma civilização de lagartos evoluídos. Depois, confrontou mais uma vez a Rapina que, agora distante da tutela de M.O.D.O.C., parecia revelar-se uma guerreira mais honrada e, por fim, descobriu que sua amiga astronauta Salia Petrie estava viva e conseguiu salvá-la da influência de um vilão androíde chamado 'Faceless One'.



Nesse tempo, Carol Danvers também tinha que encarar novas mudanças. Depois de abusar tanto da paciência de Jamenson, perdeu o cargo de editora da Woman e foi demitida. Tracy Burke tomou seu lugar e recebeu a benção de Danvers. Fora isso, Carol estava com um pequeno probleminha com seu amigo e terapeuta Michael Barrett, que nitidamente queria ter um compromisso com ela, mas Carol não. Além do que ela já estava saindo com outro cara, Sam Adams, e queria evitar magoar Mike.

Com essa nova guinada da personagem, tudo que Claremont não esperava era ter a revista cancelada sem poder dar um fim coerente a ela. Os fãs só poderiam acompanhar Carol nos Vingadores, mas sem qualquer maior detalhe de como as coisas se resolveram na novela de sua vida pessoal. O duro é que Claremont tinha já as histórias escritas da edição 24 e 25 e a capa da 24 assinada por David Cockrum. Ele estava chateado, mas ordens superiores, são ordens e ele mal tinha noção naquela época da insanidade que era a cabeça de Jim Shooter.

Somente muito tempo depois, através da publicação das robustas revistas Marvel Super Heroes 10 e 11 em 1992, que os fãs puderam ver finalmente o que Chris tinha aprontado naquelas histórias nunca publicadas até então. Na primeira revista, temos uma luta com o vilão Dentes de Sabre. Na seguinte, descobrimos que Mike Barrett foi morto pela Mística e o confronto cara a cara da Ms. Marvel com sua misteriosa vilã finalmente ocorre.



Nessa última edição, dá pra ver que Claremont aproveitou a oportunidade e reescreveu sua história a fim de não só apresentar alguns membros da sua nova Irmandande de Mutantes, como também dar uma motivação mais realista ao ódio de Raven para com a heroína. E tudo girava em torno de uma visão de Irene Adler e envolvia uma certa mutante que só conheceremos na edição #10 dos Vingadores. Sim, estamos falando daquela mutante que rouba poderes e mentes.


QUANDO O EDITOR É SEU PIOR VILÃO

Foram exatas 23 edições dos Vingadores que a Ms. Marvel esteve nessa primeira vez que entrou para o grupo. David Micheline era o roteirista na época, mas claramente vemos que era a mão do editor Jim Shooter quem estava pesando na história a ser montada para a edição comemorativa de número 200 da equipe.

Em pequenos quadros a partir da edição 197, começa a ser desenhado um estranho plot para Ms Marvel. Ao conversar com sua amiga e ex-colega de equipe Wanda numa praia, Carol passa mal e desmaia. Quando ela é levada a médico, descobre que em apenas um dia foi desenvolvida uma gestação de 3 meses nela. Aos prantos, ela revela a Wanda que é impossível, essa criança sequer tem um pai.

Passam-se mais 3 dias, Carol já está com uma barriga de nove meses e é meio que forçada a revelar sua identidade a toda a equipe de Vingadores para ver se eles podiam ajudar com aquilo. A reação de alguns colegas chega a ser pra lá de estúpida. Vai do velho "meus parabéns" até o caso do Fera que fez piada de ser o ursinho Ted da criança se ela quisesse. O alterego humano do Thor, o Doutor Donald Blake, é convocado e junto com a ajuda de Jocasta realiza o parto mais estranho da vida dele na edição 200 dos Vingadores.

Nesta edição especial, percebe-se claramente que David Micheline deixou o assento do piloto dessa história e um descontrolado Jim Shooter assumiu o lugar e se creditou como Co-Roteirista. A criança nasce, mas a taxa de desenvolvimento dela só aumenta. Em questão de horas, ele parece crescer anos. E a reação da equipe são as mais diversas e incompreensíveis possíveis. Enquanto que alguns como a Vespa não tem a mínima noção ao parabenizar Carol, outros só ficam intrigados com o fenômeno e querem desvendar o mistério. Somente alguns, como foi o caso do Magnum, parecem se preocupar em saber como a Carol realmente está. E ela está péssima.



A medida que as horas se passam e a criança só cresce, muitos fenômenos de quebra da linha do tempo acontecem ao redor. Naves espaciais avançadas a dinossauros, artefatos do futuro e passado começam a surgir e criar o caos ao redor da mansão dos Vingadores. E eles estão ali porque o recém-nascido, agora um adulto pleno chamado Marcus, é uma anomalia fugida do Limbo. O estranho revela então a verdade, que é filho do Immortus.

A explicação da história desse Marcus chega a ser completamente aterradora. Ele conta que fora deixado preso por seu pai numa dimensão de bolso especial do Limbo onde viveria a eternidade. Para escapar de lá, só havia um jeito - era preciso renascer no mundo real. Então, ele escolheu uma humana com força o suficiente para gerá-lo numa gravidez atípica e acelerada para gerar a si mesmo. Essa escolhida foi Carol Danvers, que por mais surreal que fosse, gerou Marcus que tem como pai ele mesmo.



Se você conhece um pouco da fama doentia de Jim Shooter, vai saber já pelo seu histórico que ele seria capaz dessa sandice. Mas ele resolveu não parar por aí. Para deter as anomalias, era preciso ou matar Marcus ou levá-lo de volta a sua dimensão especial no Limbo. Carol (que até então se negava a ver aquele menino que gerou), mesmo ouvido a história revoltante de como foi 'usada' contra sua vontade, não admite que Marcus seja morto. Muito pelo contrário, ela acaba decidindo seguir com ele de volta para o Limbo e não deixá-lo mais sozinho. Sentindo-se ligada a ele como mãe, mas também como amante, viveriam juntos pela eternidade. E assim, ela se despediu de parte dos Vingadores que estavam presentes e ambos sumiram com uma ajuda de um portal criado pelo Thor.

É. Foi exatamente isso o que você leu. Pode soltar um palavrão.


O ATAQUE DA VAMPIRA


Chris Claremont estava revoltado, mas suas mãos foram atadas ali. Em um texto publicado muito tempo depois, ele condena a história por tudo que há nela e conta porque decidiu dar uma resposta a altura em uma edição anual de Vingadores de número 10 quase um ano depois:

"Em Vingadores #199, Carol Danvers é apresentada aos Vingadores, e diz que em dois dias ela engravidou oito meses de um pai desconhecido, ou por forças desconhecidas, e a reação de toda a multidão, homens e ambas as mulheres, é algo do tipo "Posso ser a babá?" "Podemos tricotar botinhas?" "Posso fazer biscoitos para o bebê?" "Oh, você deve estar tão feliz?" e minha reação aquilo foi: "Que multidão insensível de idiotas".

"Na verdade, minha reação foi muito mais forte do que isso. Mas como foi insensato! Que cruel! Quão insensível! Considerando que essas pessoas devem ter visto a Ms. Marvel apenas alguns dias antes, ou mesmo alguns meses antes e que ela não estava grávida, então. Como ela poderia estar grávida de oito meses agora? Se esse fosse o ponto de vista que David [Michelinie] estava tentando fazer, que esses outros Vingadores são insensíveis, ok, então eu posso discordar do ponto, mas se ele seguisse em frente e mostrasse as implicações, teria feito sentido. Mas pareceu-me, olhando para a história, olhando para a história seguinte, que estavam dizendo que "É assim que você responde a uma gravidez".



Se alguém tinha poder para fazer alguma coisa ali ainda era o escritor da revista mais vendida da Marvel na época. Chris Claremont se aproveitou disso para fazer sua jogada. Peitou Jim Shooter que ainda era editor-chefe na época e exigiu que ele lhe desse uma história fechada livre do limite de quantidade de páginas numa revista anual dos Vingadores. Você deve lembrar dela se é fã dos X-Men. A King-Size Annual #10 traz a primeira aparição da Vampira.

Naquela época, Claremont não tinha terminado a sua história da Mística contra a Ms. Marvel como eram seus planos. Ele sequer saberia que teria a chance de fazer isso na Marvel Super Heroes 10 alguns anos mais tarde. Então, era aquela sua chance de trazer a Mística de volta (depois de tê-la levado para o título dos X-Men) junto com sua irmandade de mutantes e uma arma secreta, a jovem filha adotiva chamada Vampira. Todo mundo deve lembrar desta parte, readaptada até no desenho animado dos anos 90. Vampira começa roubando os poderes da Ms. Marvel (que estava fora do Limbo sem explicações) e sem tomar cuidado acaba muito tempo ligada a ela até deixá-la quase em coma. Danvers é depois jogada do alto de uma ponte em São Francisco e por sorte é salva pela Mulher-Aranha. Seria o começo de uma grande amizade entre as duas, por sinal.



Daí pra frente, o que vemos são os Vingadores levarem um dos maiores cacetes das vidas deles. Com os poderes da Ms. Marvel, Vampira estraçalha o Capitão América, Thor e o Visão sem suar. Magnum, pela natureza dos seus poderes, é o único poupado. Do outro lado, Mística se passando pela Vespa ataca o Homem de Ferro deixando sua armadura inoperante. Os poucos membros da equipe que sobram, Fera e Gavião Arqueiro, acabam bem castigados. Se não fosse a presença ali não prevista pela mutante vidente Sina da Mulher-Aranha, a equipe dos Mais Poderosos Heróis da Terra talvez não tivesse virado o jogo.



Mas o importante é que se perceba aqui o que Claremont estava fazendo. Uma garota com os poderes da Ms. Marvel humilhou os Vingadores. Obviamente, não seria justo com a personagem da Ms. Marvel sujar (ainda mais) seu histórico sendo ela mesma vingando-se. Então, Vampira foi usada para isso, ela surgiu para ser a vingança de Claremont. Depois, o destino fez ela ter um futuro maior pela frente.

UMA LIÇÃO AOS VINGADORES



Mais tarde, nesta mesma edição, Carol Danvers aparece sob a tutela do Professor Xavier e dos X-Men. Aos poucos, a personagem está recuperando as memórias e contou como escapou do limbo. Diferente do que Jim Shooter tentou passar com aquele lixo de roteiro, Claremont colocou que Danvers não estava apaixonada, mas sim foi manipulada por Marcus. Sua salvação foi que ao ser gerado num corpo fora do Limbo e com aquela velocidade, ao retornar para lá, ele continuou a avançar na idade rapidamente até morrer. Carol libertou-se da influência dele e em seguida fugiu.

No texto de Claremont, Carol encontra-se com eles não escondendo o quão desgostosa estava com tudo e com a atitude de seus colegas que decidiu sequer avisá-los do retorno. "Meu erro foi confiar em vocês" disse ela que sempre ponderou muito antes de ir para o time e essa frase meio que repercute o pensamento de Claremont. Ao deixar sua personagem ir para outros cuidarem fora do seu título mensal, sentiu-se traído. "Vocês ferraram tudo, Vingadores. Isso é humano. Mas é humano a habilidade de aprender com os erros. Cresçam e amadureçam. Se fizerem isso, ao menos terá um significado positivo no final. É a escolha de vocês" escreveu Claremont na voz de Danvers.



A equipe deixa a Mansão X um tanto engasgada, todos sem falar, sentados no jato em silêncio. Wanda e Visão são os únicos a dar vozes ali aos pensamentos e lamentar o ocorrido.
Já a Carol, como ela disse, resta pegar os pedaços e começar de novo, sobreviver. Ela lembra que não seria sua primeira vez na vida. Sempre lutou pela sua vida. Vai continuar lutando. Aquele foi um golpe muito cruel pra uma personagem que a princípio foi criada para ser o símbolo da mulher naquela década. Mas como isso acaba sendo um reflexo de uma realidade cruel, Claremont estava disposto a fazê-la superar isso e ser alguém maior. Mas agora sob seus cuidados.

E essa sua nova fase segue de novo com Claremont ao lado dos X-Men, mas acompanharemos isso só em alguns dias a frente no próximo Arquivo da Carol Danvers...

Coveiro

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